O Brasil nunca falou tanto sobre saúde mental, e isso é, ao mesmo tempo, um avanço e um desafio. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que, entre 2013 e 2023, o uso de medicamentos antipsicóticos cresceu mais de 50%, enquanto o atendimento psicossocial dobrou no período. Os números indicam maior acesso e redução do estigma, mas também acendem um alerta: até que ponto os sofrimentos comuns da vida estão sendo confundidos com transtornos mentais?
Para o psiquiatra e professor da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Pablo Fernandez, é preciso cautela. “A gente vive um momento importante de combate ao preconceito em relação ao adoecimento mental. Por outro lado, existe também uma tendência de patologizar experiências que são próprias da vida”, explica.
Segundo ele, o principal critério para diferenciar um sofrimento esperado de um transtorno mental está no impacto que os sintomas causam no cotidiano. “Para que se configure um transtorno, é necessário que haja prejuízo significativo na vida da pessoa, de forma persistente, na maior parte do tempo”, afirma.
Situações como término de relacionamento, luto, conflitos familiares ou pressões no trabalho podem gerar tristeza, ansiedade e até isolamento. Embora desconfortáveis, esses sentimentos nem sempre indicam doença. “O que define é a duração, a intensidade e o quanto aquilo interfere na rotina. Um sofrimento pontual, ligado a um evento específico, tende a ser superado com o tempo ou com apoio social e, em muitos casos, com psicoterapia, sem necessidade de medicação”, explica Fernandez.
O problema surge quando esses sinais persistem por semanas, se intensificam e passam a comprometer relações, trabalho ou atividades antes prazerosas. “Quando a pessoa deixa de se reconhecer no próprio comportamento, isso merece atenção”, completa.
Autodiagnóstico e desinformação
Outro fenômeno crescente é o autodiagnóstico impulsionado pelas redes sociais. Vídeos que prometem identificar sinais de transtornos como TDAH e autismo têm grande alcance, nem sempre com base científica. “Estudos mostram que os conteúdos mais acessados são justamente os menos embasados. Isso pode levar a interpretações equivocadas e fazer com que pessoas acreditem ser portadoras de condições que na realidade não possuem”, alerta o psiquiatra.

Não é algo que se define por vídeo ou por um sintoma isolado, como falta de foco (Foto: Divulgação)
Ele destaca que diagnósticos, especialmente em transtornos do neurodesenvolvimento, exigem avaliação aprofundada, histórico de vida e acompanhamento profissional. “Não é algo que se define por um vídeo ou por um sintoma isolado, como falta de foco”, ressalta.
Uma outra questão que deve ser levada em conta é o uso de medicamentos controlados sem receita. Para o psiquiatra, trata-se de uma prática completamente arriscada e potencialmente nociva à saúde. “A razão pela qual essas medicações têm receitas controladas é justamente porque têm necessidade de prescrição médica para o seu uso e acompanhamento próximo de possíveis efeitos colaterais e reações adversas. Algumas delas podem, inclusive, induzir dependência”, esclarece.
Quanto ao uso do CBD, esse uso atualmente é off-label para condições de saúde mental. Fernandez explica que recentemente um estudo bastante amplo e aprofundado sobre o uso de canabinóides para condições psiquiátricas concluiu que não há evidências atuais que corroborem o seu uso na prática clínica. “É um tema que ainda está em estudo dentro da psiquiatria, porém, até o momento, a ciência não recomenda”.
Geração sob pressão
Entre jovens e adultos das gerações Z e millennials, o uso de antidepressivos e ansiolíticos tem aumentado. Para Fernandez, o fenômeno é multifatorial. “Vivemos uma lógica de desempenho constante, com alta cobrança por resultados, ao mesmo tempo em que os espaços de convivência e lazer foram substituídos pelas telas”, analisa. A comparação com padrões irreais nas redes sociais também contribui para sentimentos de inadequação e solidão.

A saúde mental não se resolve da noite para o dia, mas tem tratamento, estratégias e melhora (Foto: Divulgação)
A falta de conexões sociais sólidas é um fator de risco importante. “Ter relações saudáveis é um dos principais elementos de proteção contra episódios depressivos. Investir em vínculos não é trivial, é cuidar da saúde”, afirma.
Quando não tratar agrava
Deixar de buscar ajuda pode levar à cronificação dos quadros. “Transtornos não tratados tendem a se agravar e podem evoluir para outras condições. Ansiedade e depressão, por exemplo, frequentemente se sobrepõem ao longo do tempo”, explica. Além disso, há uma relação direta entre saúde mental e física. “Doenças psiquiátricas estão associadas a alterações metabólicas e inflamatórias e podem aumentar o risco de outras doenças. E o contrário também acontece”, diz.
Tratamento vai além da medicação
Embora o uso de medicamentos seja indicado em muitos casos, ele não é a única abordagem. “O tratamento em saúde mental precisa ser amplo. Inclui psicoterapia, atividade física, mudanças de hábitos e, muitas vezes, acompanhamento multidisciplinar”, afirma.
Há situações em que apenas a psicoterapia é suficiente. Em outras, o uso de medicação é necessário, mas sempre com acompanhamento. “Nem todo tratamento precisa terminar em receita, e nem todo sofrimento precisa de remédio”, reforça.
Sinais de alerta
Entre os principais indícios de que é hora de procurar ajuda estão:
- tristeza persistente por semanas
- perda de interesse em atividades antes prazerosas
- isolamento social
- ansiedade constante, com sensação de urgência ou preocupação excessiva
- mudanças bruscas de comportamento ou humor
“O importante é observar quando há ruptura com o padrão habitual da pessoa e prejuízo no dia a dia”, orienta.
Infância, adolescência e o papel das telas
Entre crianças e adolescentes, os sinais podem ser diferentes, como irritabilidade, queda no desempenho escolar e mudanças de comportamento. “Muitas vezes isso é minimizado como ‘fase’, o que pode atrasar o diagnóstico”, alerta.
O uso excessivo de telas também preocupa. “Os estímulos digitais são pensados para gerar recompensa constante. Isso pode dificultar a tolerância à frustração e a capacidade de atenção”, explica.
Além disso, a falta de supervisão pode expor jovens a conteúdos inadequados ou ambientes nocivos. “O diálogo dentro de casa é fundamental. Interesse genuíno pelo que a criança ou adolescente consome faz toda a diferença”, destaca.
Nunca é tarde
Apesar dos desafios, o especialista reforça que há caminhos. “A saúde mental não se resolve da noite para o dia, mas existe tratamento, existem estratégias e existe melhora. Nunca é tarde para procurar ajuda”, afirma.
No fim, o equilíbrio parece ser a chave: cuidar do corpo, cultivar relações, reduzir o excesso de telas e buscar sentido nas atividades do dia a dia. “A vida saudável passa por reconhecer que nem todo sofrimento é doença, mas também por saber quando ele deixa de ser apenas parte da vida e precisa de atenção”, conclui.
