Na semana que passou me debrucei em dois artigos sobre o tema indicado a protagonista nas eleições 2026. O primeiro tem como autora Juliane Furno, ex-assessora especial da presidência do BNDES, professora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto Tricontinental. O segundo, Elis Radmann, cientista social e diretora do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO). Ambas avaliaram a dicotomia que rege hoje a economia brasileira: o empobrecimento populacional frente a indicadores positivos.
O tempo voa e consome a areia que cai da ampulheta responsável pelo calendário de 2026. Ano de muitos feriadões, Copa do Mundo e promessas. Pão e circo à vontade — basta querer fazer parte da plateia. Em pouco tempo, teremos a campanha nas ruas e as ilusões políticas passarão a ter peso nas rodas de conversa. Será quando o tema “endividamento” ganhará o papel principal no processo de escolha do próximo presidente da República.
O assunto chama cada vez mais a atenção de especialistas. O país vive uma das menores taxas de desemprego na série histórica, registra baixa inflação e soma crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Ainda assim, a sensação coletiva é de uma nação difícil de se viver. Em economia, ter dívida não é, necessariamente, algo ruim. Ao contrário, faz parte de um ciclo de investimentos. Mas o brasileiro chega a abril de 2026 sem forças financeiras. Hoje, temos 80% das famílias endividadas e 29,6% com as contas em atraso. Alguns meses atrás, 16,5% admitiam não ver qualquer perspectiva para reorganizar o orçamento.
Em sua análise, Juliane Furno afirma que “estamos diante de uma situação relativamente paradoxal”. Ela recorre a dois elementos para explicar como melhoria econômica real e percepção negativa andam de mãos dadas. O primeiro diz respeito ao crescimento da renda em uma velocidade menor que o consumo das famílias. O segundo, à sensação de estarmos vivendo pior se compararmos a outros momentos da história. Principalmente os jovens não veem se concretizar a promessa de sucesso profissional a partir de políticas públicas focadas no maior acesso ao ensino superior. E “sensação”, sabe-se, tem tanta força e impacto quanto a realidade.
Elis Radmann usa sua experiência como pesquisadora para dissecar a mesma percepção: “Este tema está dentro das casas, nas ruas e nas redes sociais. Não importa o tipo de pesquisa que o IPO faça, a situação da economia está na narrativa dos diferentes tipos de entrevistados e atinge todos os níveis socioeconômicos. Há um consenso de que está se perdendo o poder de compra!”.
As duas convergem suas análises para o óbvio: o impacto político e a insatisfação com o governo federal. Impossível separá-los. As dificuldades cotidianas desafiam a gestão de Lula 3. Para Elis, já não se trata mais de “apenas polarização ideológica ou de disputas partidárias; trata-se de sobrevivência econômica”. O eleitor que se vê endividado não está preocupado com narrativas políticas sofisticadas, mas com a possibilidade de manter sua família em condições dignas. Juliane reforça: “as pessoas não estão nem vendo a cor do dinheiro”, e o vínculo com a juventude produtiva está sendo perdido.
Não é coincidência que a popularidade do governo Lula venha em trajetória descendente. E ela não é reflexo de um maior interesse pela extrema direita. Os percentuais de identificação ideológica se mantêm. A oposição, porém, usa as fragilidades econômicas para culpar a esquerda, que se debruça sobre um cenário ambíguo e já não conquista aplausos como no passado, quando a fórmula funcionava. A inflação até pode estar controlada (a oficial, pois a inflação do povo é infinitamente maior), mas o poder de consumo evaporou, itens e serviços básicos estão quase inacessíveis, e o déficit doméstico explode antes de todo dia 30.