Pioneiro da pesquisa cinematográfica brasileira, reconhecido em nível nacional e internacional, Pery Rodrigues Ribas ainda não foi suficientemente valorizado entre nós. Nascido em Pelotas no dia 26 de junho de 1904, ele cresceu na cidade que inaugurou sua primeira sala de cinema em 1909, o Éden Salão, e ficou impressionado com o surgimento em 1913 da “Fábrica de Films Guarany” do português Francisco Santos, cineasta que lançou neste mesmo ano Os Óculos do Vovô. Como bem pontua a jornalista e escritora Fatimarlei Lunardelli, “Pery só tinha quinze anos quando começou a escrever sobre cinema. Mais surpreendente é o fato de manter uma coluna apenas sobre cinema brasileiro” (História do Clube de Cinema de Porto Alegre, 2000, p. 24).
Fontes diversas indicam que após seus primeiros escritos no jornal pelotense O Libertador, Pery Ribas (que inicialmente utilizava os pseudônimos Operador e P. R.) dedicou-se durante seis décadas às pesquisas sobre cinema. Já na década de 1920 publicava em nível estadual no jornal o Estado do Rio Grande, sendo que em 1932, a convite do cineasta e jornalista Adhemar Gonzaga, um dos criadores da revista Cinearte, muda-se para o Rio de Janeiro. Na década de 1930, além de suas contribuições nesta revista, escreveu colunas em outros periódicos da capital, tais como Diário Carioca, Gazeta de Notícias, A Noite, Diário de Notícias e O Jornal. Sua produção intensifica-se nas décadas de 1940 e 1950, escrevendo centenas de textos para a revista de cinema Cena Muda, e outros periódicos do Rio de Janeiro, entre eles o Carioca, O Malho, Suplemento Juvenil, Revista da Semana, Correio da Manhã, Fon Fon e O Cruzeiro.
De retorno a Pelotas em 1952 por motivos de saúde, além de seguir publicando nos periódicos fluminenses, passa a escrever para o Correio do Povo, onde trará à luz pesquisas seminais sob o título de “Roteiro do Cinema Mudo Brasileiro”, em duas edições (Porto Alegre, 27 e 29/03/1953). Já no início da década de 1950, o crítico cinematográfico Salvyano Cavalcanti noticiava que Pery Ribas, conhecido entre seus colegas como o “Arquivo ambulante”, o “Homem-Filmografia”, em companhia do pesquisador Pedro Lima, estava “preparando uma História do Cinema Brasileiro” (Cena Muda, RJ, 22/03/1951, p. 14). Embora tal livro não tenha sido publicado, duas investigações de fôlego de Pery Ribas atestam sua capacidade como historiador da sétima arte.
A primeira delas em nível internacional, a saber: “Il cinema in Brasile fino al 1920”, publicado no livro Il Cinema Brasiliano (Traduzione dal portoghese di Aldo Borla. Silva Editore: Genova, 1961, p. 13-24); o segundo por ocasião do Sesquicentenário da cidade de Pelotas, nos mais de dez artigos publicados no jornal Diário Popular sob o título “História do Cinema na Princesa do Sul”, entre 1962 e 1963. Na década de 1960 e início de 1970, Pery Ribas destaca-se pelas publicações em nível estadual no “Caderno de Sábado” do Correio do Povo, onde também obteve grande reconhecimento por uma série de colunas intituladas “Cem filmografias” e “Memórias do Cinema Brasileiro”.
Personalidade de referência da crônica cinematográfica, ainda em vida ele obteve reconhecimento. Sua pesquisa editada no livro Il Cinema Brasiliano foi diversas vezes citada no texto “Le monde sonore du Film Muet” (O mundo sonoro do filme mudo), de autoria do crítico cinematográfico italiano Mario Verdoni, que veio a público em 1966 após uma encomenda da Unesco para uma mesa-redonda em Budapeste que teria por título “A trilha sonora no cinema e na televisão”. Já em 1975, Pery Ribas “foi homenageado por ocasião do III Festival do Cinema Brasileiro de Gramado, em reconhecimento pelos seus trabalhos de pesquisas sobre cinema, principalmente o brasileiro” (Filme Cultura, maio de 1979, p. 128). E conforme notícia na Extremo Sul. Revista mensal de informações: “foi fundado em Pelotas, a 4 de julho do ano passado, o Centro de Estudos Cinematográficos Pery Ribas” (Pelotas, 1979, p. 20).
Falecido em sua cidade natal em 22 de fevereiro de 1979, o nome de Pery Ribas continuou sendo lembrado entre nós. O “Centro de Estudos Cinematográficos Pery Ribas” presidido por Montecir Garcia Farias, e registrado oficialmente em 11 de junho de 1979, durante aproximadamente duas décadas esteve sediado no centro histórico de Pelotas, contando com amplo acervo de revistas, livros e discos de cinema, chegando a ter um bom número de sócios. Além de ter sido criada uma Avenida no bairro Areal com o nome do vate pelotense, João Manuel dos Santos Cunha também procurou reconstruir parte de sua trajetória biográfica e profissional no interior do verbete “Cinema”, publicado no Dicionário de História de Pelotas (2010, p. 67-68).
Cabe lembrar que a pesquisadora Fatimarlei Lunardelli, em entrevista a Amir Labaki, observou: “Os escritos de Pery integram o acervo de P. F. Gastal, agora acrescido do acervo do Clube de Cinema. Está tudo junto, aguardando tratamento técnico” (“Lançamento celebra clube de cinema mais antigo do Brasil”, Folha de São Paulo, 02/08/2000). Parece que de lá para cá pouco se avançou na recepção de seu legado, visto que embora o nome de Pery Ribas e determinados trechos de seus textos possam ser encontrados atualmente em alguns artigos científicos e dissertações acadêmicas, nenhuma dessas abordagens tem ele próprio como foco.