Desconexão total da realidade

Editorial

Desconexão total da realidade

Desconexão total da realidade
(Foto: Divulgação)

A fala da desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará, ganhou repercussão nacional ao afirmar que o corte dos penduricalhos ao Judiciário deixa a magistratura numa situação “muito triste” e que no futuro a categoria pode não ter como pagar as contas, fazendo inclusive uma ainda mais infeliz associação com regime de escravidão. Ela teve remuneração média, no último ano, superior aos R$ 85 mil por mês.

A falta de sensibilidade vai justamente ao encontro da crescente crítica ao judiciário brasileiro, que vive em uma bolha. Em um país onde 23,1% da população vive em estado de pobreza e 3,5% dos seus cidadãos vivem em extrema pobreza, o salário de um desembargador é maior do que, muitas vezes, de centenas de famílias. Se vai faltar recursos na sua conta, a responsabilidade é de sua irresponsabilidade financeira, não do contribuinte brasileiro. Se acredita que trabalha demais e ganha pouco, como ela afirmou, talvez seja hora de mudar de carreira.

O desabafo da desembargadora – que certamente via verdade no seu próprio sofrimento diante da possiblidade de ganhar menos que a fortuna que ganha e na percepção de que membros do judiciário estão sendo criminalizados – saiu pela culatra. É pauta em praticamente todas as rodas de discussão do país hoje. E realmente isso deve ser discutido. O país deve urgentemente discutir uma reforma do Judiciário que seja íntegra e leve ao fim da elitização da categoria.

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, inclusive publicou um artigo sugerindo isso, mas em um texto que vem permeado de críticas ao presidente da corte, Edson Fachin. Mais uma amostra de que o próprio judiciário tem tido pouquíssima maturidade para discutir a própria situação. Só que ele tem razão em um ponto: mudanças superficiais não têm espaço. Deve-se avaliar com profundidade o momento atual do judiciário, a total falta de conexão com a sociedade em que estão inseridos, a excessiva politização, as relações de amizade para lá de preocupantes e os ganhos absurdos têm que entrar no balaio das pautas necessárias para que o país seja um país melhor.

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