Uma das coisas que mais me incomodam em brasileiros é a síndrome de vira-lata, como se tudo que fosse de bom gosto viesse de fora. Mas meu incômodo vai além. É fácil demais amar o Rio de Janeiro como turista: ver as praias, tomar café da manhã de hotel e assistir ao desfile da Sapucaí — imagino a cidade assim, já que nunca tive o privilégio de conhecê-la.
Minha irritação se estende até Pelotas. Ultimamente, com o aumento da extrema direita, o movimento do “orgulho latino” cresceu como oposição ao conservadorismo. Porém, ironicamente, os gaúchos parecem ter orgulho da visão americana do Brasil: futebol, samba, cerveja, Copacabana e praia. Realmente, o nosso país é tudo isso — ainda bem. Mas, desses itens citados acima, eu tenho o Xavante, a cerveja Polar e a praia do Laranjal.
Costumo esquecer o quanto gosto de caminhar olhando em volta, reconhecendo todas as pessoas ao redor. Tento ver a nossa cidade como um turista. Recentemente, fiz o trajeto do jornal A Hora do Sul até a Faculdade de Direito, caminhando pela Praça Coronel Pedro Osório. Prédios históricos e conservados contrastam com novos empreendimentos, criados por pelotenses que não só acreditam em si mesmos, como também acreditam no potencial de crescimento da nossa cidade.
Crianças brincam no parque da praça, com um mural artístico ao fundo. Pessoas andam de bicicleta e correm, porque agora, cada vez mais, temos grupos de corrida na cidade. E, quanto mais eu me aproximava do polo universitário, percebia jovens de vários lugares do Brasil — adultos que serão futuros criadores, investidores, profissionais e professores, e que eu espero que reconheçam o quanto temos aqui.
Pelotas adotou meu pai e minha mãe de uma forma que fez com que não só eles nunca quisessem sair, como também quisessem criar seus filhos aqui. E esta filha sabe muito bem o porquê. Claro, ser latino é maravilhoso. Mas ouvir um “merece” em vez de um “de nada” tem seu valor.