A Câmara de Vereadores de Pelotas começou a analisar um projeto de lei que propõe a criação de um programa municipal de estudos para avaliar a viabilidade da tarifa zero no transporte coletivo. A proposta, do vereador Jurandir Silva (PSOL), não cria gratuidade imediata, mas estabelece uma etapa de diagnóstico para embasar uma possível política pública no futuro.
O projeto define que o município deverá levantar dados detalhados sobre o funcionamento do sistema de ônibus, incluindo custos operacionais, receitas, subsídios, número de passageiros e indicadores de qualidade. A partir disso, a intenção é construir um retrato técnico do transporte coletivo em Pelotas e identificar quais seriam os impactos de uma eventual mudança no modelo de financiamento.
Além do diagnóstico local, o programa prevê análise de experiências de outras cidades que já discutiram ou implementaram a tarifa zero. O texto também inclui a avaliação de efeitos sociais, econômicos, ambientais e urbanos da medida. Para realizar este trabalho, o Executivo poderá firmar parcerias com universidades e centros de pesquisa, além de promover audiências públicas e consultas abertas à população.
O tema chega à Câmara em um contexto recente de pressão sobre a tarifa. Em março, Pelotas reajustou o valor da passagem para R$ 6,25, com unificação entre linhas urbanas e rurais e manutenção de subsídio público para equilibrar o sistema. O aumento recolocou o custo do transporte no centro da discussão local e abriu espaço para propostas que tratem do modelo de financiamento.
Essa discussão passa por características próprias da operação no município. O sistema atende linhas mais longas e áreas afastadas, como Colônia Z-3 e Vila Princesa, o que amplia o tempo de viagem, o consumo de combustível e o custo operacional. Esse fator costuma ser citado como diferença em relação a cidades com malha mais concentrada e trajetos mais curtos, onde a conta do transporte tem outra configuração.
O peso do diesel ajuda a dimensionar esse cenário. Em março, durante dificuldades de abastecimento, o consórcio informou que a frota urbana consome entre 11 mil e 12 mil litros de combustível por dia, com cerca de 27,5 mil quilômetros rodados diariamente. Esses dados reforçam que o custo do sistema não depende apenas do número de passageiros, mas também da extensão das linhas e da logística necessária para manter a operação.
Ao mesmo tempo, a prefeitura já trabalha com uma frente que pode alterar essa estrutura de custos. O município garantiu financiamento de R$ 57 milhões, via PAC, para a compra de 15 ônibus elétricos e seis carregadores. A expectativa do governo é que a mudança reduza o custo operacional ao longo do tempo e produza impacto na tarifa nos próximos anos, ao diminuir a dependência de combustível. Nesse cenário, o projeto apresentado na Câmara funciona como uma etapa inicial dentro de um debate mais amplo. Enquanto cidades como Canoas já adotaram a tarifa zero, Pelotas pode começar pela organização de dados e pela análise técnica do sistema.
Pacote aprovado
A última sessão da Câmara na semana também aprovou projetos de autoria de parlamentares e da prefeitura. Entre os destaques, estão duas matérias ligadas à Guarda Municipal, que tramitaram em regime de urgência. Uma delas atualiza a lei de criação da corporação, altera a estrutura de cargos do funcionalismo e cria um novo grupo de atividade vinculado à Segurança Pública. A outra institui o Estatuto da Guarda Municipal de Pelotas. Durante a tramitação, os projetos do Executivo receberam quatro emendas do Legislativo.
Também foram aprovados cinco projetos de autoria do vereador Arthur Halal (PP). Entre eles, ganha destaque a proposta que prevê a instalação de dispositivo eletrônico, o chamado botão de pânico, nas escolas públicas do município. As demais matérias tratam da criação da Semana do Feirão de Emprego, da inclusão do Grande Prêmio Princesa do Sul no calendário oficial de eventos e da declaração do Circulu’s Lanches e da Sociedade Libanesa como patrimônios históricos, culturais e imateriais de Pelotas.
Vice definido
Edegar Pretto anunciou que aceitou ser candidato a vice-governador na chapa liderada por Juliana Brizola (PDT) para a eleição de outubro, um movimento que consolida a articulação conduzida pelas direções nacionais de PT e PDT e encerra, ao menos por ora, a disputa interna sobre quem formaria a dupla do campo da esquerda na corrida ao Palácio Piratini.
Até a semana passada, Pretto era o nome do PT para a disputa ao governo estadual. No dia 9, ele retirou a pré-candidatura após o avanço de uma orientação nacional ligada à estratégia de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A leitura em Brasília era de que o mais importante, no Estado, era formar uma chapa única, com Juliana na cabeça e o PT representado na vice, para garantir palanque e unidade política em 2026.
Esse arranjo passou também por resistência interna. A decisão do PT foi consolidada em reunião do diretório estadual realizada na última terça-feira, marcada por um intenso debate entre correntes do partido. Ao final, foi aprovada uma resolução política que formalizou o apoio à aliança com o PDT e definiu Pretto como interlocutor petista nas negociações. O documento vincula a composição gaúcha à prioridade nacional do partido, que hoje é a reeleição de Lula.