“Ser palhaça é não ter problema com o erro. É errar e rir do próprio erro.”

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“Ser palhaça é não ter problema com o erro. É errar e rir do próprio erro.”

Karla Concá - Diretora carioca e palhaça

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Atualizado segunda-feira,
20 de Abril de 2026 às 10:32

“Ser palhaça é não ter problema com o erro. É errar e rir do próprio erro.”
(Foto: Divulgação)

O riso também é político. E, para as mulheres, ele pode ser ainda mais. Essa é uma das reflexões da atriz, diretora e palhaça Karla Concá, que esteve em Pelotas para participar de atividades do projeto Ria – Encontro de Palhaçaria Feminina.

O riso feminino ainda é limitado por padrões sociais?
Muitas vezes o riso não era permitido para nós, mulheres. Como as princesas riem? Discretamente. Quem gargalha são as bruxas ou as mulheres de cabaré. Então o nosso riso sempre foi colocado entre esses lugares, como se a mulher que ri alto não fosse uma mulher séria. Esse tipo de julgamento faz parte de uma estrutura cultural que ainda se reproduz. Quem nunca ouviu ‘ri mais baixo’ ou ‘está querendo chamar atenção’? Às vezes isso vem até de outra mulher. É algo muito estrutural.

Como a palhaçaria se encaixa nesse contexto?
A palhaçaria desafia essa lógica. O palhaço ou a palhaça são personagens que erram, expõem fragilidades e transformam isso em riso. Ser palhaça é não ter problema com o erro. É errar e rir do próprio erro. O ser humano erra, mas para as mulheres sempre foi exigida perfeição: como mãe, dona de casa, esposa. A palhaça rompe com essa ideia de perfeição.

Como surgiu o grupo de palhaçaria?
Foi com o grupo As Marias da Graça, criado no Rio de Janeiro em 1991, considerado um dos pioneiros da palhaçaria feminina no Brasil. Na época ainda era comum ouvir que mulheres não eram engraçadas. A primeira coisa que um palhaço homem disse para nós foi: ‘Por que vocês não tiram esses narizes? Vocês são tão bonitinhas’. Hoje eu entendo o que aquilo significava: ainda existe a ideia de que a mulher precisa preservar uma imagem de beleza e delicadeza. O tradicional nariz vermelho da palhaça também funciona como provocação. Enquanto todo mundo busca a harmonização facial, a palhaça coloca um nariz no rosto e provoca uma desarmonização. É como dizer: ‘Esse rosto é meu e eu faço dele o que eu quiser’.

A técnica artística pode transformar a forma como as pessoas lidam com o cotidiano?
Alegria é exercício. Eu costumo dizer que sou palhaça para não sofrer. Se eu não fosse palhaça, talvez eu não me suportasse. Eu escolho a alegria todos os dias. Nas oficinas proponho exercícios que ajudam os participantes a olhar para os problemas com mais leveza. A vida é feita de situação, problema e solução. O problema pode ser igual para todo mundo, mas a solução é pessoal. É aí que entra a sua palhaça: ela encontra caminhos mais leves e criativos.

Como está a adesão à palhaçaria feminina?
Quando começamos, éramos poucas. Hoje existem muitas palhaças e mais de vinte festivais dedicados à palhaçaria feminina no país. Isso mostra que as mulheres estão ocupando espaços que antes não ocupavam.” Ao mesmo tempo, essa mudança também provoca reações sociais.Estamos vendo mais mulheres protagonizando histórias. Isso mexe com estruturas antigas e gera conflitos. Mas é um movimento que não tem volta.”

Qual o exercício indicado para quem começar a rir?
Procure uma foto antiga da infância e observe seu olhar e seu sorriso. A sua palhaça está ali, naquele momento em que você ainda não tinha colocado tantas máscaras. O desafio é reencontrar esse lugar.”

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