A base logística do Projeto Antártico Brasileiro (Proantar), conhecida como Estação de Apoio Antártico (Esantar), sairá dos domínios da Universidade Federal de Rio Grande (Furg) e será transferida para a Estação Naval, ainda em Rio Grande. A transferência ocorre após encerramento do contrato de cooperação mútua. Sobre a ruptura estar relacionada com a remoção de títulos honoris causa concedido à ex-militares, nenhuma das instituições confirma a ligação.
A universidade afirma, em nota, que o encerramento do convênio trata do Centro Logístico de Apoio às Operações no Continente Antártico, assinado em 2020, que encerrou seu prazo de vigência em outubro do ano passado e a Marinha do Brasil (MB) optou por não renovar o contrato. Ainda assim, as atividades terão continuidade com a prestação de serviços dos pesquisadores para o apoio antártico, mas de forma remota. A sede do Esantar passa para a Estação Naval, localizada a 500 metros do Porto de Rio Grande, o que facilitaria as operações do projeto, segundo a Marinha.
Por sua localização geográfica estratégica e vocação eminentemente marítima, a Furg foi convidada pela Marinha do Brasil (MB) a participar do Projeto Antártico Brasileiro (Proantar), a partir de 1982. Por um convênio celebrado com a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM) novas instalações foram construídas e habilitadas, surgindo a Estação de Apoio Antártico (Esantar), administrada pela Coordenação de Apoio às Operações na Antártica da universidade.
A MB afirma que a mudança da sede se dá apenas por razões logísticas, que representam um grande avanço para o trabalho que já vinha sendo realizado. “A nova estrutura também permitiu uma ampliação na capacidade de armazenamento, com uma área de cerca de 1.600 metros quadrados, concentrando em um único espaço todos os equipamentos de acampamento, vestimentas antárticas e as viaturas que prestam apoio ao Programa Antártico Brasileiro”, afirma em nota.
Em nota, a Furg afirma que as duas instituições mantêm uma excelente e longínqua relação institucional, com o desenvolvimento de uma série de outros projetos. “A Furg e a Marinha do Brasil se respeitam e seguem trabalhando conjuntamente pelo desenvolvimento do nosso território”, conclui.
Financiamentos
Sobre a possibilidade de perda de investimentos em pesquisa, a Furg reforça que não recebia repasse de verbas da Marinha do Brasil para desenvolvimento do programa. Em cinco anos de vigência do último convênio, a Marinha do Brasil aportou cerca de R$ 11,8 milhões para a logística do apoio antártico. O valor, administrado pela universidade e pela Fundação de Apoio à Universidade Federal do Rio Grande (Faurg), foi utilizado para compra e manutenção de equipamentos, contratação de pessoal, aquisição de material de consumo e gêneros alimentícios, por exemplo. “Na prática, o valor nunca foi investido na Universidade, mas sim no funcionamento do projeto”, afirma a nota.
O convênio não contemplava o pagamento de bolsas para estudantes ou pesquisadores. Sendo assim, com o encerramento das atividades, não há prejuízo monetário de nenhuma pesquisa em andamento.
A Marinha do Brasil afirma que todas as ações que foram desenvolvidas permanecem na cidade, e que a Furg segue participando do Proantar em três projetos: Baleias, que estuda a diversidade, ecologia espacial e uso do habitat por cetáceos no oceano austral no contexto das mudanças climáticas; projeto Impactant, que analisa o impacto das mudanças climáticas na biodiversidade e resiliência dos ecossistemas marinhos na região da Península Antártica; e o Prosamba, de estudo dos processos oceanográficos em hotspots climáticos do oceano austral.
Honoris causa
Em abril de 2024, o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen, enviou uma carta à universidade criticando a cassação do título de doutor honoris causa concedido a Maximiano Eduardo da Silva Fonseca. O almirante, que morreu em 1998, foi ministro da Marinha durante a ditadura militar, no governo de João Figueiredo, entre 1979 e 1984.
Na carta, Olsen manifesta “profundo desagrado” à medida e ressalta que Maximiano foi o “idealizador do mais longevo programa estratégico de pesquisa do Brasil, o Programa Antártico Brasileiro (Proantar)”.
O reitor da Furg na época, Danilo Giroldo, respondeu à manifestação com um documento de três páginas onde reconhecia a “complexidade” do assunto e afirmava que Maximiano foi “uma pessoa com inquestionáveis e grandiosas contribuições ao nosso país”.
No entanto, Danilo afirmou que Maximiano foi implicado “no cometimento de graves violações dos direitos humanos”, citando “o uso do navio hidrooceanográfico Canopus como prisão ilegal”.
