Projetos não são definidos apenas pelos resultados. Também são definidos pelas ideias que sobrevivem às mudanças.
No futebol, trocar treinadores é comum. Mais difícil é construir uma identidade que permaneça depois de cada troca.
Em menos de quatro meses, a SAF do Brasil chega ao terceiro treinador. Gilson Maciel iniciou a caminhada. Laécio Aquino foi escolhido para mudar a rota ainda nas duas últimas rodadas da Série D e na Copa FGF, mas também não conseguiu entregar a evolução esperada. Agora, Júlio César Nunes assume o comando às vésperas da competição mais importante da temporada.
As trocas podem ser justificadas pelos resultados. O que ainda pede resposta é outra questão: afinal, qual é a identidade esportiva que a SAF pretende construir?
Um treinador sempre leva consigo uma nova forma de enxergar o jogo. Chega uma nova liderança, um novo método de trabalho e outra maneira de treinar, competir e se comunicar. Tudo isso só produz resultados com tempo. Justamente o recurso que a Divisão de Acesso menos oferece.
Ainda não é possível identificar com clareza qual perfil de treinador representa a ideia de futebol da SAF. Gilson conhecia profundamente o clube e foi mantido pelo trabalho desenvolvido na temporada anterior. Laécio chegou com características diferentes, credenciado pelos bons resultados obtidos no futebol catarinense, e recebeu a missão de mudar a rota. Agora, Júlio César Nunes também apresenta outro perfil. Formado e lapidado no futebol gaúcho, onde construiu boa parte da carreira, conhece o cenário da Divisão de Acesso e chega depois de experiências recentes no Norte do país.
Durante a busca pelo novo treinador, a direção avaliou diferentes perfis no mercado. Luizinho Vieira esteve entre os nomes analisados, assim como outros profissionais avaliados antes da escolha por Júlio César Nunes. Mais do que discutir quem seria o melhor treinador, a reflexão é outra: qual perfil de treinador melhor representa o projeto da SAF? A definição por Júlio César Nunes ajuda a revelar essa identidade ou responde principalmente às necessidades deste momento?
Ainda é cedo para responder. Afinal, a gestão tem apenas quatro meses e seria precipitado exigir uma identidade completamente consolidada. Mas essa reflexão é natural. Quando os perfis avaliados e escolhidos apontam para caminhos diferentes, o torcedor procura entender qual futebol a SAF pretende construir.
Emerson da Rosa conviveu, ao longo da carreira, com diferentes treinadores, escolas e metodologias no futebol brasileiro e europeu. Essa bagagem aumenta a expectativa de que o projeto também desenvolva uma identidade própria. Talvez ela já exista internamente. No campo, essa identidade ainda não pôde ser percebida com clareza.
Júlio César Nunes chega sem carregar a responsabilidade pelos erros do primeiro semestre. Mas terá pouco tempo para entregar justamente aquilo que os anteriores não conseguiram: evolução.
Um treinador pode mudar um time. Uma identidade é o que sustenta um projeto.
Planejamento não elimina a urgência. Apenas aumenta a responsabilidade sobre cada decisão. O relógio da SAF continua marcando anos. O da Divisão de Acesso começa a contar em dias.
O acesso deixou de ser apenas uma meta. Tornou-se uma obrigação esportiva para um clube que investe como poucos na competição, montou um dos elencos mais fortes da Série A2 e assumiu publicamente esse compromisso. Qualquer outro desfecho representará um novo fracasso esportivo.
Mas o acesso, por si só, não responderá a todas as perguntas. O segundo semestre precisará mostrar, finalmente, qual é a identidade esportiva que a SAF pretende construir no Brasil.