Quem atravessa a porta do Centro de Memória e Pesquisa História da Alfabetização, Leitura, Escrita e dos Livros Escolares (Hisales), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), faz uma viagem no tempo. Logo na entrada, uma sala de aula cuidadosamente reconstruída remete às escolas de outras décadas. Carteiras de madeira, o quadro, livros didáticos, canetas de pena, mimeógrafos e objetos que fizeram parte da rotina de milhares de estudantes ajudam a contar uma história que vai muito além da nostalgia.
Entre as relíquias preservadas está um planejamento de aula produzido pela professora Erna Maria Lore, em novembro de 1898, um dos registros mais antigos do acervo. Ao lado dele, milhares de cadernos escolares, livros didáticos, cartas, diários, cadernos de receitas, fotografias, mobiliário e materiais pedagógicos revelam como diferentes gerações aprenderam a ler, escrever e construir conhecimento.
Neste ano, o Hisales celebra 20 anos de preservação de fragmentos da história da educação em Pelotas, do Brasil e de outros países, através do trabalho de pesquisa. Vinculado à Faculdade de Educação da UFPel, o espaço nasceu do sonho da professora Eliane Peres, que, ao retornar do doutorado, percebeu a necessidade de preservar documentos e objetos que contassem a história da alfabetização, da leitura, da escrita e dos livros escolares sem que pesquisadores precisassem recorrer apenas aos grandes arquivos das capitais.
“O objetivo sempre foi reunir materiais que contassem a história da educação da nossa região e, ao mesmo tempo, preservasse um patrimônio que normalmente ficava guardado dentro das casas das pessoas”, explica a professora Adjunta do Departamento de Ensino da Faculdade de Educação, Vania Grim Thies, atual coordenadora do centro. Grande parte desse patrimônio chegou por meio de professores aposentados, ex-alunos e famílias decidiram doar objetos que marcaram suas trajetórias escolares, permitindo que histórias individuais passassem a integrar a memória coletiva.
História em cadernos
O que começou com poucos cadernos transformou-se em um dos maiores acervos especializados do Brasil. “Nós temos aqui o maior acervo de cadernos escolares do Brasil. São cerca de três mil cadernos, do século 19 até os dias atuais, o que demonstra o respeito e a confiança que as pessoas têm no nosso trabalho ao fazer essas doações”, destaca a também coordenadora e professora do Centro de Artes, Chris de Azevedo Ramil. São centenas de escolares, livros didáticos, escritos pessoais e familiares, jornais escolares, mapas, mobiliário, materiais pedagógicos e documentos que registram diferentes formas de ensinar e aprender ao longo dos séculos.
Plano de aula
Nas folhas amareladas pelo tempo, a data é de 20 de março de 1980. O objetivo da aula de um jardim de infância de Pelotas foi desenvolver a capacidade do aluno em conviver com os colegas e professora num clima de coleguismo e amizade. Para isso foram desenvolvido hábitos e atitudes que o levasse ao interesse e responsabilidade. Entre as atividades, a professora pediu que cada um ouvisse a história com atenção para responder as perguntas. Depois a missão foi unir os tracinhos da borboleta até a flor. Na mesma página, a professora cola o convite de aniversário que recebeu do aluno Leandro. A festa foi em sala de aula. A descrição de uma folha de caderno revela uma vida inteira de dedicação à licenciatura registrada através dos planos de aula.

Relíquias contam com registros de diversos países (Foto: Henrique Risse)
Esses planejamentos despertam muita atenção de quem visita o Hisales. Feitos à mão, com anotações cuidadosas, ilustrações, colagens e observações pedagógicas, eles revelam uma dedicação que ajuda a compreender a evolução do trabalho docente. Em tempos de planejamentos digitais e materiais prontos disponíveis na internet, esses documentos mostram outra relação entre o professor, o ensino e a preparação das aulas. Para as coordenadoras, o caderno revela a caligrafia de uma criança, os métodos de alfabetização de uma época, as correções feitas pelos professores e até mesmo aspectos da vida cotidiana. “Há registros produzidos no Rio Grande do Sul, em outros estados brasileiros e também em países como Portugal, Espanha, Estados Unidos e nações africanas”, revela Chris.
Reflexões
A experiência de visitar o espaço também provoca reflexões entre crianças e adultos. Enquanto os pequenos se surpreendem ao conhecer a palmatória, o mimeógrafo ou a caneta de pena, muitos visitantes mais velhos reconhecem objetos que fizeram parte da própria infância. “Uma criança que visitou o espaço olhou para os materiais e disse: ‘É como uma relíquia’. Aquela definição me emocionou, porque é exatamente isso que buscamos preservar: a memória da escola e da escrita”, explica Vania.
O centro atende pesquisadores, estudantes, professores e visitantes interessados em conhecer essa trajetória. Além das pesquisas acadêmicas, promove ações de ensino e extensão, visitas guiadas e exposições permanentes e temporárias que aproximam a comunidade da história da educação. “Eu sempre digo às nossas bolsistas: o meu sonho é que existam 100 anos de Hisales. Nós vamos passar por aqui, mas o importante é que o trabalho permaneça e continue preservando essa memória para as próximas gerações”, diz emocionada a professora Vania. E por falar em equipe de trabalho, a professora Chris agradece muito a todas as pessoas que passaram pelo grupo nesses 20 anos. “Um aluno que ficou uma tarde aqui higienizando um livro é muito importante, assim como quem entrou aqui e nunca mais saiu. O trabalho é feito pela disposição, pelo interesse, pelo aprendizado, pela partilha e pela experiência.”
Futuro
O próximo desafio é ampliar o acesso ao acervo por meio da digitalização dos documentos. O trabalho permitirá preservar materiais extremamente delicados e facilitará a consulta de pesquisadores brasileiros e estrangeiros interessados na história da alfabetização e da cultura escolar. A ajuda de custo pode estar nos recursos destinados pelo governo Federal a dois editais que a UFPel foi contemplada, sendo um deles para preservação, modernização de acervos científicos, históricos e culturais, através do Finep.

Documentos ajudam a compreender a educação de outros tempos (Foto: Henrique Risse)
“Às vezes dizem que gostamos de coisas velhas, mas, na verdade, nós cuidamos de muitas vidas. Cada caderno, cada carta e cada livro guarda histórias que precisam ser preservadas para que outras gerações possam conhecê-las”, revela Chris. Segundo a coordenadora, preservar esse patrimônio é também estabelecer um diálogo com o presente.
