Entramos na segunda semana do inverno com previsão de temperaturas extremamente baixas. No domingo retrasado, um homem morreu por suspeita de hipotermia em Pelotas, cidade que tem cerca de 900 pessoas vivendo em situação de rua, conforme reportagem de março publicada no A Hora do Sul. Já no outro hemisfério, onde é verão, a França registra mil mortes por conta da onda de calor, segundo jornais locais. Diante disso tudo, é fundamental refletirmos sobre a abordagem do clima, sobretudo pela imprensa, reforçando que os extremos e o desequilíbrio climático não cabem à editoria de entretenimento e demandam um debate profundo sobre os impactos sociais que vêm causando.
Frio e calor sempre existiram, mas, quando ultrapassam o padrão histórico, é motivo de alerta. Não são apenas as chuvas acima ou abaixo da média que indicam problemas. As temperaturas também. E os mais afetados são justamente os mais pobres, tanto de um lado quanto de outro. É preciso abordar o tema como um assunto sério, por mais que seja um debate popular sobre preferências. Mas isso fica para o cidadão discutir na mesa de bar ou no elevador se prefere frio ou calor.
É neste momento que devemos exigir dos governos e das entidades um olhar social e planos estratégicos robustos de acolhimento. Pessoas morrem quando os termômetros fogem do habitual. Em uma cidade como Pelotas, por exemplo, em que a população em situação de rua vem em um crescente aumento nos últimos anos, é preciso pensar em formas de acolher e oferecer ao menos o básico: conforto térmico, alimentação adequada e dignidade para que as pessoas não morram de frio.
Em uma análise nua e crua, o inverno rigoroso e o verão extremo matam mais do que chuvas. Portanto, neste momento, em que olhamos com tanta atenção para o El Niño e a tendência de novas cheias na primavera, é preciso compreendermos que o debate climático é ainda mais abrangente e precisa estar de olho nos termômetros e na forma como tratamos os seres humanos mais necessitados diante dessas frequentes extrapolações que estamos presenciando.
