Um “ilustre desconhecido”, no centro do mapa cultural de Pelotas

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Um “ilustre desconhecido”, no centro do mapa cultural de Pelotas

Exposição no Malg/UFPel celebra a obra do artista pelotense Josuel Miranda

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Um “ilustre desconhecido”, no centro do mapa cultural de Pelotas
(Foto: Divulgação)

O Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, da Universidade Federal de Pelotas (Malg/UFPel), abre as portas de sua sala principal nesta quarta-feira (17), para um acontecimento duplo de profunda relevância cultural e reparação social. A exposição Eu sou um ilustre desconhecido, uma retrospectiva que reúne cerca de 50 obras do multiartista pelotense Josuel Miranda, marca não apenas a celebração de suas nove décadas de vida, completadas exatamente no dia da abertura, mas também se torna um marco inédito para a instituição pública: em quase 40 anos de existência, esta é a primeira vez que um artista negro ocupa o espaço expositivo mais nobre do Museu.

Sob a curadoria dos professores e pesquisadores Neiva Bohns e Rogério Lima, a mostra socializa um trabalho de resgate da trajetória deste artista, pouco conhecido na sua terra natal, que começou há um ano. Na retrospectiva os curadores costuram um acervo de pinturas e desenhos que guardam as memórias, as dores e a vibrante alegria de viver de um resiliente e incansável criador. Visitação, gratuita, até 22 de agosto, de terça a sábado, das 13h às 18h30min, na praça Sete de Julho, 180.

Arte e celebração à vida

Nascido em Pelotas em 1936, Josuel Miranda conheceu cedo as asperezas da vulnerabilidade social. Filho de uma família humilde, começou a trabalhar na infância para ajudar a mãe, que era lavadeira e doceira, fazendo entregas e até batendo bolos. E foi esse cotidiano de subúrbio e o convívio com as elites pelotenses, para as quais prestava serviços, que se tornaram a matéria-prima da sua produção visual. “Tudo com muita delicadeza e muita pureza. O Josuel é uma pessoa delicada. Ele não é capaz de agredir ninguém e chega a nove décadas assim com essa doçura, o que é uma coisa muito rara”, elogia a professora Neiva.

Em vez de rancor, Miranda filtrou a realidade através de uma sensibilidade luminosa e colorida, inspirada nos grandes mestres do modernismo brasileiro e no figurativo como narrativa de suas telas cheias de histórias e camadas. “A obra dele celebra a vida. Nós conseguimos observar que na grande maioria das obras, a alegria de viver é muito presente”, destaca o curador Rogério Lima.

A produção de Miranda transita por festejos populares, como o carnaval e as procissões católicas, mesmo tendo uma família adventista, e pela boemia, além de homenagens às potentes figuras femininas que passaram pela vida do artista. Outra marca registrada são os detalhes: telas densamente preenchidas com cores vibrantes e a constante presença de animais domésticos (cães e gatos) contracenando com os personagens humanos.

Resistência e resiliência

No final da década de 1970, após expor com sucesso em galerias locais, Josuel Miranda partiu rumo ao Rio de Janeiro, assim como outros amigos artistas de sua geração. O artista, que reunia em si múltiplas camadas de exclusão – era pobre, negro e homossexual – foi em busca de outros territórios, provavelmente, em busca de liberdade, de ser quem ele realmente era, comenta o professor Rogério Lima.

A exposição lança luz sobre o que os curadores identificam como duas diásporas forçadas: a africana, dos antepassados do artista, resultando em ambiente social hostil para a descendência afro-brasileira, e a de gênero. “Embora essa exposição seja muito vibrante em uma gramática autoral do artista, ela tem uma mensagem subliminar muito forte, que é esse olhar de resistência de se reinventar”, fala Lima.

O curador enfatiza a presença do artista, pela primeira vez, no único Museu de Arte de Pelotas, o que para Lima gera uma série de outros desdobramentos e identificações. “A função do museu é exatamente essa, fazer com que todas as pessoas se sintam presentes e pertencentes, sobretudo quando o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo é de uma instituição de ensino pública. A presença da exposição do Josuel Miranda revigora esse sentido do pertencimento e da inclusão”, avalia o professor.

Apesar do pouco reconhecimento em sua cidade, Miranda é um artista respeitado e que tem obras em países como a França, Inglaterra, Itália, Espanha e Argentina. Os curadores também lembram que em Pelotas, apesar do sucesso de suas exposições na década de 1970, a obra era descrita como “primitiva” e o autor rotulado como “autodidata”, termos rechaçados com veemência pelos curadores.

Os curadores explicam que Miranda é um profundo conhecedor da arte e um estudioso das técnicas de pintura. “O imaginário dele é construído a partir do modernismo brasileiro”, fala a curadora.

O retorno triunfal

A mostra traz telas históricas, que datam a partir de 1972, até produções vigorosas realizadas pelo neste ano, provando que sua urgência criativa permanece. No centro da sala, um emocionante depoimento em vídeo sintetiza a força de sua trajetória. Foi desse registro que nasceu o título da exposição, extraído da última frase dita pelo artista: “Existem obras minhas no mundo inteiro,…mas eu sou um ilustre desconhecido”. Mais de 50 anos depois, Miranda finalmente retorna para ocupar, por direito, o centro do mapa cultural de sua cidade.

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