Com 50 anos de carreira, professor mais longevo da Medicina da UFPel segue na ativa

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Com 50 anos de carreira, professor mais longevo da Medicina da UFPel segue na ativa

Mesmo aposentado, Carlos Alberto Bandeira mantém atividades de ensino e atendimentos no consultório; para o psiquiatra, o aprendizado contínuo e o contato com os alunos o renovam

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Com 50 anos de carreira, professor mais longevo da Medicina da UFPel segue na ativa
Psiquiatra deu aula para quase todos os mais de 200 psiquiatras formados pela residência da Leiga (Foto: Jô Folha)

Com a mesma disciplina de psiquiatria teórica em que ele estreou como docente concursado na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) há cinco décadas, o professor Carlos Alberto Bandeira se despediu há poucos meses das salas de aula. Mas o desejo de continuar em contato com os alunos e de acompanhar a evolução da psiquiatria não permite que ele se desvincule totalmente da Faculdade de Medicina.

Todas as quartas-feiras, o professor Bandeira, ou Band, como é chamado carinhosamente pelos alunos, está pela manhã no departamento de Saúde Mental da universidade para discutir casos clínicos com os alunos da residência. Prática que ele mantém há 50 anos e que não pretende parar. “Eu acho que a atividade mais antiga da residência é essa, agora eu não coordeno mais, mas vou continuar [participando], assim a gente se mantém mais atualizado”, diz.

O seminário de apresentação da residência em psiquiatria para a recepção dos novos alunos também é outra atribuição que o professor Bandeira ressalta não abrir mão, mesmo com a oficialização da aposentadoria. “Então eu vou continuar, não vou me desvincular totalmente, porque descansar, ficar parado, cria mofo”, brinca. As cinco décadas de dedicação à sala de aula não foram, para o psiquiatra, motivo para querer descansar; a aposentadoria veio devido a ele completar 75 anos em breve. “Então eu tinha que me aposentar antes, porque senão tem a compulsória, ou a expulsória”, diz com humor.

O desejo pela psiquiatria inspirado por um seriado

Quando Bandeira ingressou no curso de Medicina, historicamente conhecido como Leiga, a faculdade ainda não era federalizada. Mas um dos paralelos que se pode fazer com o momento atual é que, assim como muitas séries de streaming sobre medicina encantam as pessoas, ele escolheu a residência de psiquiatria inspirado por um seriado sobre a atuação de um psiquiatra.

Bandeira posa com alunos após a conclusão da sua última aula antes da aposentadoria (Foto: Divulgação)

“Eu tinha uma ideia muito fantasiosa de psiquiatria, tinha esse seriado com esse psiquiatra bárbaro e eu entrei na faculdade querendo fazer psiquiatria. Desde o início eu fazia estágio no Espírita, fiz internato, plantão, era monitor de psicologia médica”, relembra. Já o início da carreira como professor surgiu da vontade dele e de um colega de fazer mestrado e doutorado na Inglaterra. Na época, a docência no currículo era um facilitador para o ingresso nas especializações e, diante da vontade dos alunos, um professor da Medicina conseguiu, junto ao diretor da faculdade, a contratação dos egressos como docentes.

“Porque, para tentar ir para o exterior, como professor era mais fácil de conseguir. E aí então eu tive uma carreira muito rápida, eu me formei em dezembro e, em fevereiro, fui contratado como professor”, conta. Apesar de que, naquele momento, todos os residentes costumavam dar aulas, Bandeira foi um dos primeiros docentes oficializados.

Quando a Leiga foi federalizada no final da década de 60, Bandeira enfrentou um grande desafio: passar no concurso público para continuar com a sua vaga, que era uma de apenas quatro disponíveis para a residência. “Era um concurso público com gente de fora pelas nossas vagas, nunca estudei tanto na vida [brinca]. Porque tinha gente mais velha e tal fazendo concurso”, diz.

As transformações da psiquiatria

A psiquiatria ser vista com alguns estigmas ainda hoje tem raízes em um preconceito arraigado no passado. À época, conhecidos como “médicos de loucos”, o professor conta que, quando foi abrir seu primeiro consultório com um colega, recebeu de um professor o conselho de escolher a sala em um espaço em que outros profissionais atendessem. Isso para os pacientes não ficarem constrangidos de entrar em prédio de psiquiatras.

“O professor Darcy dizia assim: você aluga uma sala em um edifício que tenha dentista, advogado, que tenha tudo. Então a pessoa entra no edifício e não se sabe onde é que vai”. Alguns anos depois, Bandeira e outros colegas locaram uma casa na rua Almirante Barroso para congregar vários consultórios. “Aí tinha umas crianças que brincavam ali na frente da casa e diziam que ali era o Palácio da Loucura”, lembra.

De estratégias para disfarçar a consulta com um psiquiatra, a discriminação de pacientes com transtornos mentais, há algumas décadas, dificultava, de forma geral, o acesso aos tratamentos adequados. Como consequência, as internações eram recorrentes, sempre em locais afastados. “Começaram os hospícios, o Espírita [Hospital Espírita de Pelotas] mesmo. Aquilo lá era um fim de mundo, totalmente afastado da cidade, era uma enfermaria onde botavam os ‘loucos’ para mandar para São Pedro [em Porto Alegre] uma vez por mês”, diz.

Sala de discussão de casos clínicos homenageia trajetória de Bandeira (Foto: Jô Folha)

Para o psiquiatra, entre os avanços da área está a organização de uma rede de acolhimento de pacientes, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Mas Bandeira ressalta que, apesar disso, parte dos estereótipos negativos permanece. “E o doente mental sempre passa pelo estigma. O nosso departamento é de saúde mental, não é psiquiatria. Os outros são cardiologia, gineco, pediatria, mas a [palavra] psiquiatria é mais pesada”, exemplifica.

Aposentadoria simbólica

Ao atravessar uma série de transformações na docência e na prática clínica ao longo da carreira, Carlos Alberto Bandeira não olha para trás com saudosismo, mas para o futuro, preparado para acompanhar as mudanças e os avanços que vierem pela frente. Mesmo com a aposentadoria da UFPel, a agenda do psiquiatra continua cheia entre os atendimentos no consultório e os compromissos com os alunos da residência.

Mas, além disso, Bandeira está tentando reorganizar a rotina para aproveitar o tempo a mais concedido pela aposentadoria para ingressar na graduação no curso de História. “Eu gosto muito de história. Estou com dificuldade [para fazer o curso] porque, na universidade, a graduação de história é à tarde, e esse é o meu horário de consultório. Então eu tenho que ver se começo a fazer disciplinas isoladas”.

Como resposta para o vigor que demonstra ao realizar uma série de atividades e à ausência de vontade de desacelerar, Bandeira diz que o segredo para uma longevidade saudável é estar sempre aprendendo e aberto aos mais novos.

“Eu sempre tenho um verso do João Cabral de Melo Neto, do [livro] Vida e Morte Severina: ‘que nasce um Severino feinho, magrinho, todo ruim e aí diz, é belo porque o novo o velho contamina’. E eu acho que é isso, acho que a gente tem que se manter em atividade. Com o aluno, a gente se mantém mais atualizado, tem mais motivo para estudar, faz muito bem esse contato. É difícil de eu me acomodar”, conclui.

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