O aumento da demanda por atendimentos de saúde no Brasil tem gerado superlotação e longas filas. Esse cenário é impulsionado pelo represamento histórico de procedimentos, pelo crescimento de 20% na procura por saúde mental, pela alta circulação de síndromes respiratórias e por um forte aumento na busca por clínicas populares por parte de quem não possui convênio. Na Zona Sul do Estado, os principais Prontos Socorros em funcionamento enfrentam situações assistenciais alarmantes.
Em Rio Grande está, possivelmente, o caso mais grave: a estrutura de urgência e emergência da Santa Casa está com sua taxa de ocupação de leitos em 210%. Em Pelotas, o cenário nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) é menos grave, no entanto, chama a atenção a taxa de ocupação de corredor, que está em 167%.
A taxa de ocupação de corredor é um indicador que mede o percentual de macas extras e leitos improvisados ocupados nos corredores de uma emergência em relação à capacidade estrutural ideal. Quando essa taxa ultrapassa 100%, significa que há falta de leitos hospitalares definitivos.
Cerca de 51% dos leitos de UTI de Pelotas estão ocupados. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda uma taxa de ocupação hospitalar ideal entre 75% e 85%. Quando o percentual de uso de leitos ultrapassa esse limite, ocorre o fenômeno do boarding (pacientes aguardando internação), levando à ocupação de corredores, macas extras e poltronas.
Monitoramento
A secretária da Saúde de Rio Grande, Juliana Acosta, afirma que a prefeitura está acompanhando a situação de superlotação nos leitos da Santa Casa e da rede assistencial. Ela reconhece que o cenário atual reflete um aumento expressivo da demanda por atendimentos, realidade observada em diversos municípios além de Rio Grande e que impacta em diferentes pontos da Rede de Atenção à Saúde, incluindo as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), especialmente em razão do aumento de casos respiratórios e de pacientes que necessitam de internação hospitalar, permanecendo em observação enquanto aguardam a disponibilização de leitos.
Juliana destaca que, recentemente, foram adotadas medidas para ampliação da capacidade assistencial, incluindo a abertura de 10 novos leitos de enfermaria para os casos de Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAGs) e 10 leitos de UTI. “No entanto, ainda enfrentamos a dificuldade frente a outras condições clínicas e estamos monitorando diariamente os indicadores de ocupação e mantendo diálogo permanente com os prestadores e demais gestores da rede de atenção para avaliar a necessidade de novas estratégias, sempre com o objetivo de garantir o acesso e a continuidade da assistência à população”, diz a secretária.
Pacientes
Segundo a Santa Casa de Rio Grande, o perfil assistencial dos pacientes atendidos é composto, em ordem de predominância, por casos clínicos, cardiológicos, AVC, pacientes com perfil de cuidados intensivos, respiratórios, cirúrgicos, pediátricos e ambulatoriais.
Em Pelotas, a maior parte dos atendimentos e internações é por conta de doenças cardiovasculares e agravamento de quadros clínicos de pacientes com câncer.
Atualmente, são contabilizados 38 pacientes que aguardam leitos para internação em Rio Grande. Todos estão regulados pelo Sistema Estadual de Regulação, aguardando a disponibilização de leitos na própria Santa Casa ou em outros hospitais de referência.
Medidas emergenciais
Devido à alta taxa de ocupação e falta de espaço estruturado para acolher todos os pacientes graves que chegam até a unidade, pessoas estão sendo acomodadas em corredores e poltronas da Santa Casa de Rio Grande. A situação é considerada excepcional pela instituição, que afirma que nenhum paciente grave deixará de ser atendido e que isso não corresponde ao padrão habitual de atendimento da instituição.
A limitação da estrutura física e da disponibilidade de recursos humanos, segundo a instituição, são fatores que impactam diretamente a capacidade de resposta frente à superlotação persistente. Por isso, é reforçada a orientação para que casos de menor gravidade sejam direcionados às UPAs e às Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Essa medida contribui para preservar a capacidade do Pronto-Socorro para o atendimento de pacientes com condições graves, que necessitam de assistência imediata e de maior complexidade.