Quatro em cada dez casos de câncer foram provocados por fatores evitáveis

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Quatro em cada dez casos de câncer foram provocados por fatores evitáveis

Pesquisa internacional demonstra que mais de 7 milhões de diagnósticos da doença em 2022 estavam relacionados principalmente ao tabagismo, infecções e álcool

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Atualizado domingo,
05 de Julho de 2026 às 11:19

Quatro em cada dez casos de câncer foram provocados por fatores evitáveis
O tabaco é a principal causa prevenível de câncer a nível mundial, responsável por 15% de todas as novas notificações (Foto: Divulgação)

Quase 40% de todos os diagnósticos de câncer em 2022 estavam associados a causas preveníveis. A conclusão é de um estudo global feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com a Agência Internacional de Investigação sobre o Câncer (Iarc). Foram cerca de 7,1 milhões de casos provocados por fatores como tabagismo, infecções, álcool e excesso de peso.

Com base em dados de 185 países e 36 tipos de câncer, o estudo identificou o tabaco como a principal causa prevenível de câncer a nível mundial, responsável por 15% de todas as novas notificações. Na sequência aparecem as infecções, com 10%, e o consumo de álcool, com 3%. Três tipos de câncer, pulmão, estômago e colo do útero, representaram quase metade de todos os casos de câncer evitáveis em homens e mulheres.

Principais ligações entre tabaco, vírus, bactéria e câncer

De acordo com a análise, o câncer do pulmão esteve majoritariamente associado ao tabagismo e à poluição do ar. O câncer do estômago foi sobretudo atribuído à infecção pela bactéria Helicobacter pylori, enquanto o câncer do colo do útero foi causado quase exclusivamente pelo vírus HPV.

A médica clínica e residente oncológica, Marina Bainy, destaca que a principal estratégia de prevenção ao HPV, além do uso de preservativo, é a vacinação. No entanto, o imunizante está disponível no SUS apenas para a faixa etária de nove a 14 anos. Adolescentes e mulheres que não foram abrangidas e não podem custear a vacina no sistema particular ficam desprotegidas.

“A vacina é fundamental, ela previne mais de 90% dos casos de câncer [de colo de útero], até para os pacientes que já tiveram câncer de colo de útero, porque tem estudos que mostram que diminui a recidiva da doença”, diz.

Sobre o tabagismo, a médica cita que, além de ser uma das principais causas do câncer de pulmão, o tabaco é responsável por taxas expressivas de casos de câncer de cabeça e pescoço. “Pelo processo inflamatório que ele causa em todo o corpo, o tabaco pode causar diferentes tipos de câncer”. Após a queda no número de fumantes a partir de campanhas de conscientização sobre os malefícios do tabaco, um novo problema é a popularização dos cigarros eletrônicos.

Conforme Marina, a quantidade de pacientes jovens com quadros graves de lesões pulmonares tem crescido rapidamente. Por se tratar de uma prática mais recente, ainda não há estudos amplos sobre todos os tipos de câncer que podem ser causados por vapes ou outros tipos de impacto para a saúde. “Esses processos de lesões são pré-neoplásicos, indicam uma maior chance de câncer. Nos cigarros eletrônicos se tem uma maior exposição a altas temperaturas e nem sabemos o que essa grande quantidade de fumaça vai causar a longo prazo”.

Processos inflamatórios predispõem ao câncer

Todos os processos inflamatórios a longo prazo no organismo elevam o risco de desenvolvimento de câncer. Isso porque as inflamações são agressões contínuas à saúde, conforme explica Marina. E elas podem ter origem em uma infecção crônica silenciosa por vírus como os da hepatite B, C e D ou por bactérias como a Helicobacter pylori, que atinge principalmente o sistema gastrointestinal.

Da mesma forma, a inflamação crônica que predispõe o crescimento desordenado de células e a formação de tumores pode ser causada por anos de uma alimentação desregulada e pela ingestão de álcool, mesmo em pequenas quantidades. A médica explica que a síndrome metabólica causada pela obesidade, diabetes e hipertensão, associada a outros fatores como alterações hormonais, é um terreno fértil para o surgimento de câncer.

O básico a longo prazo evita o câncer

As prescrições pétreas de cuidados com a saúde — alimentação saudável, prática de exercícios físicos regularmente, vacinação, prevenção de infecções e não ingestão de álcool e uso de tabaco — são medidas que, adotadas a longo prazo, previnem o desenvolvimento de uma série de problemas de saúde, incluindo doenças graves e mortais como o câncer.

Os hábitos de vida saudáveis têm o poder de impedir o desenvolvimento de determinados tipos de câncer em pessoas com predisposição genética, como, por exemplo, o de mama, ovário e próstata. “Temos mutações genéticas que são hereditárias, a gente ter a alteração, ter o BRCA mutado [gene que predispõe à doença, por exemplo, a chance é maior de ter uma neoplasia, mas não é uma sentença”, diz a médica.

Isso ocorre porque a predisposição genética, por si só, não é suficiente para o desenvolvimento do câncer. Além das informações contidas no DNA, são necessários estímulos do ambiente capazes de desencadear alterações no organismo e ativar os processos biológicos envolvidos no surgimento da doença.

Assim, a adoção de hábitos de vida saudáveis e o cuidado com a saúde podem reduzir esse risco, de modo que uma pessoa com predisposição genética jamais apresente qualquer manifestação de câncer ao longo da vida. “Tu ter um histórico genético positivo, ter um familiar com mutação, não é uma sentença para ti. Quer dizer que tu tem que te cuidar mais, quer dizer que tu tem que fazer os exames de rastreio mais precocemente”, explica.

Como reduzir os riscos de câncer

Tabaco

A fumaça do tabaco contém mais de 7.000 substâncias químicas, das quais pelo menos 250 são reconhecidamente nocivas e pelo menos 69 são cancerígenas. Em todo o mundo, o tabagismo é o maior fator de risco evitável para a mortalidade por câncer e mata mais de 8 milhões de pessoas por ano, entre câncer e outras doenças.

Álcool

O álcool é considerado uma substância tóxica e carcinógeno do Grupo 1, causalmente associado a sete tipos de câncer, incluindo câncer de esôfago, fígado, colorretal e de mama. O consumo de álcool está associado a 740.000 novos casos de câncer a cada ano.

Na União Europeia, o consumo leve a moderado de álcool foi associado a quase 23 mil novos casos de câncer em 2017.

Inatividade física, fatores alimentares, obesidade e sobrepeso

O excesso de peso e a obesidade estão associados a muitos tipos de câncer, como o de esôfago, colorretal, de mama, endometrial e renal. A prática regular de atividade física, a manutenção de um peso corporal saudável e uma dieta equilibrada podem reduzir esses riscos.

Infecções

Infecções cancerígenas, como hepatite e o vírus do papiloma humano (HPV), são responsáveis por até 25% dos casos de câncer em países de baixa e média renda. As vacinas disponíveis para o vírus da hepatite B e alguns tipos de HPV reduzem o risco de câncer de fígado e de colo do útero, respectivamente.

Radiação

A exposição à radiação solar causa todos os principais tipos de câncer de pele, como carcinomas e melanomas. Evitar a exposição excessiva e usar protetor solar e roupas de proteção são medidas preventivas eficazes.

Poluição ambiental

Estima-se que a poluição do ar tenha contribuído para 4,2 milhões de mortes prematuras em todo o mundo em 2016, das quais 6% foram por câncer de pulmão.

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