“No Passo dos Negros estão vinculados mais de 2 mil anos de história”

Abre aspas

“No Passo dos Negros estão vinculados mais de 2 mil anos de história”

Cláudio Baptista Carle - Arqueólogo e professor da UFPel

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“No Passo dos Negros estão vinculados mais de 2 mil anos de história”
Pesquisador detalha que território é um marco do período escravagista e industrial. (Foto: Yan Oliveira)

O arqueólogo e professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Cláudio Baptista Carle está à frente do projeto Pesquisa Arqueológica no Passo dos Negros, iniciativa que reúne universidade, estudantes e moradores da comunidade para investigar uma das áreas mais antigas e simbólicas da formação de Pelotas. Com autorização de 16 meses concedida pelo Iphan, o trabalho alia pesquisa científica e educação patrimonial. Segundo o professor, o objetivo vai além de escavações: trata-se de devolver à cidade o conhecimento sobre sua própria origem.

Qual a importância do Passo dos Negros no contexto histórico de Pelotas e da região?

Vamos pensar que a cidade se chama Pelotas. Pelotas é um termo espanhol que quer dizer bola. Bola era um barco em forma de bola, feito de couro, usado por navegadores indígenas quando os espanhóis chegaram à região. Eles procuravam um lugar de passagem pelo Canal São Gonçalo e encontraram esse ponto, que vai dar origem ao nome Arroio Pelotas e Passo das Pelotas. Depois recebe outros nomes, entre eles Passo dos Negros.

O passo não era uma ponte como hoje. Era um lugar de travessia. A areia trazida pelas águas formava bancos onde o gado conseguia cruzar. Então o Passo dos Negros se constitui como lugar estratégico de passagem de tropas de gado vindas do sul. Esse gado seguia depois para São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde abastecia principalmente a população escravizada. Mais tarde, isso se transforma no transporte do charque. Ou seja, o nome da cidade nasce ali. A cidade chama Pelotas por causa do passo.

Onde fica exatamente essa área hoje, dentro da geografia atual de Pelotas?

Originalmente era entre o Arroio Pepino e o Arroio Pelotas. Hoje, em função da formação do bairro da Balsa, a área pega parte do Navegantes e vai até a Marina Verde. A gente usa como referência a Ferreira Viana, o Arroio Pelotas, o Canal São Gonçalo e a rua principal do bairro da Balsa.

O que comprova a ocupação de dois mil anos no local?

Nós temos vestígios arqueológicos na área, inclusive um cerrito, uma montanha de areia feita por povos indígenas, com sentido ritualístico, como uma pequena pirâmide. Esse vestígio é semelhante a sítios datados no Pontal da Barra, por volta de 2 mil anos antes do presente. Então a ocupação ali é muito antiga.

Além do período indígena, que outras marcas históricas existem no local?

Há várias camadas históricas. Primeiro o passo original, depois as charqueadas. Lá ainda existem prédios ligados a esse período. Depois vem a fase industrial, com o Engenho Osório, que foi o maior engenho de arroz da América Latina. Ele produzia, armazenava, selecionava e exportava grãos. Em torno dele se formou uma vila operária, escola, casas da diretoria e o Clube Osório. Também passaram trilhos franceses usados para transportar pedras que ajudaram na estrutura do porto de Pelotas. Ou seja, o Passo está relacionado a vários momentos fundamentais da cidade.

Como funciona o projeto arqueológico que começa agora?

Todo arqueólogo no Brasil precisa de autorização do Iphan para realizar pesquisas, porque todo patrimônio arqueológico pertence ao povo brasileiro. Eu me sentei com a comunidade, montamos um projeto compartilhado e encaminhamos ao Iphan. Recebemos autorização para 16 meses de trabalho. Não é só arqueologia em si. É também educação patrimonial. A comunidade vai aprender a defender o seu próprio patrimônio.

O que o senhor espera entregar para Pelotas ao final desse trabalho?

Eu acho que entregar a identidade da cidade. A cidade precisa se identificar com ela mesma. Precisa conhecer a si mesma. Isso faz parte da cidade. É onde a cidade nasceu.

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