A vida não é uma aposta

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

A vida não é uma aposta

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A campanha lançada pelo Grupo A Hora — Diga não às Bets — vai na contramão do caminho adotado por parte da imprensa, que aceita abrir mão de valores fundamentais a quem faz jornalismo em troca de patrocínio. É uma escolha: contribuir para uma sociedade melhor, livre de vícios e de fenômenos que nada acrescentam ao bem-estar social, ou dizer sim ao dinheiro pelo dinheiro. Nós escolhemos a primeira opção.

Não buscamos reconhecimento pelo gesto. Buscamos compromissos. Gostaríamos de estar focados 100% em campanhas com pautas positivas, mas não podemos nos furtar à importância do momento. Já avaliávamos como nos posicionaríamos sobre as bets enquanto um dos principais grupos de comunicação da Metade Sul, frente a nossa responsabilidade com os leitores, ouvintes e internautas, para os quais existimos e trabalhamos.

O crescimento dos danos provocados pela explosão dos sites de apostas online desde 2018, com o endividamento da população e o descontrole mental de quem não consegue mais administrar a própria vida, tomada pelo vício, aliado à explosão da publicidade, levou o Grupo A Hora a definir sua posição nessa guerra contra a ludopatia. Nunca uma frase feita teve tanta lógica: não culpe o jogador, culpe o jogo.

O crescimento silencioso da dependência em apostas deixa um rastro de vítimas. No ano passado, mais de 25 milhões de brasileiros procuraram as plataformas regulamentadas para jogar (e perder). Porém, pesquisas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontam que cerca de 11 milhões apresentam grau de comportamento problemático relacionado às bets. O número representa 5% da população do país.

Precisamos refletir. O transtorno do jogo, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), traz para a vítima problemas como depressão, ansiedade, abuso de álcool e aumento do risco de suicídio. A família se torna extensão desse drama difícil de resolver. Paga com o endividamento e o comprometimento do orçamento mensal, a perda do poder aquisitivo, o aumento da violência doméstica, o desemprego, o fim do casamento, entre outros problemas.

O comércio é outro setor impactado. O dinheiro que faz a economia girar, garante postos de trabalho e fomenta o desenvolvimento desaparece. Bilhões de reais migram para o caixa das empresas de apostas. Aliás, alguém já viu a sede de alguma delas ou sabe onde elas ficam?

O jornalismo tem papel fundamental na vida das comunidades. Reconhecidamente, regiões com jornais locais apresentam níveis maiores de desenvolvimento. Mas, quando esses veículos decidem ser “parceiros” de agentes causadores de uma doença, algo está errado, muito errado.

Nos Estados Unidos, as divisões jornalísticas das redes de TV CNN e CNBC fecharam contratos com duas empresas para promover sistemas de apostas baseados em eventos da agenda pública. De acordo com reportagem do Observatório da Imprensa (escrita por Carlos Castilho), as pessoas passaram a apostar em pautas. Os acertadores dividem 80% do valor apostado, enquanto 20% fica com a imprensa. Castilho chama essa “venda da alma” dos veículos de “betificação” da notícia. Assuntos importantes passaram a ser tratados apenas sob dois lados: quem vence e quem perde.

Em audiência realizada no Senado, defensores públicos defenderam restrições à publicidade das bets, da mesma forma que o Brasil proibiu os anúncios de cigarros, nos anos 2000. A hiperexposição à propaganda não poupa faixas etárias, meios de comunicação nem horários. Está em todas as plataformas, a todo momento, principalmente nos celulares. É impossível não ser impactado, mesmo para quem não joga.

O Grupo A Hora escolheu um lado. Somos contra as apostas online pelo descontrole socioeconômico que provocam e pelos danos à saúde mental. A geração de impostos — o governo Lula (PT) arrecadou R$ 9,95 bilhões em 2025 com os jogos — não justifica a epidemia de problemas que o país vive, resultantes do vício. A vida da população não é um bilhete da sorte.

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