Pequenas peças que engrandecem a arte de empreender

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Pequenas peças que engrandecem a arte de empreender

Do comércio do pai à criatividade, Marleci Dutra transforma o artesanato em sustento e inspiração

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Pequenas peças que engrandecem a arte de empreender
Itens com simbologias do Rio Grande do Sul garantem a renda da família (Foto: Divulgação)

É sobre duas rodas que Marleci Gonzales Amorim Dutra, 56 anos, carrega seu dom mais precioso: a arte. De feira em feira, o artesanato feito em couro, madeira e massa leva a simbologia de Pelotas e da cultura gaúcha. Nas pequenas peças, como ímãs de geladeira, chaveiros, porta-chaves e artigos para o chimarrão, está o sustento da família Dutra. A trajetória, que começou em uma banca do Mercado Central, passou pela avenida Bento Gonçalves e hoje ocupa as feiras da praça Coronel Pedro Osório e eventos voltados ao empreendedorismo feminino, é marcada pela persistência, criatividade e resiliência.

O artesanato entrou na vida de Marleci ainda na infância. Os pais administravam uma loja no Mercado Central e comercializavam artigos típicos do Rio Grande do Sul e lembranças de Pelotas. Quando esses produtos deixaram de ser vendidos, os clientes continuaram procurando pelas peças, despertando nela uma oportunidade. Anos mais tarde, ao assumir um espaço no mercado, passou a comprar artesanato de fornecedores, mas enfrentava dificuldades para manter o estoque.

Como tudo começou

A solução foi aprender sozinha. “Eu guardava uma peça de cada artesão para tirar o modelo. Foi assim que comecei a produzir o meu próprio artesanato”, lembra. A M&M Artesanatos Gauchescos, conta ela, nasce da observação e da criatividade. Cada peça passa por um processo de adaptação até ganhar identidade própria. Objetos tradicionais da cultura gaúcha, como rodas de carreta, cuias e chaleiras, servem de inspiração para composições. Muitas ideias, conta a artesã, surgem no cotidiano.

DIferencial da obra de Marleci está na identidade dos produtos (Foto: Divulgação)

“Ao passar em frente a uma residência e ver uma escultura de uma chaleira servindo chimarrão decidi reproduzir a cena em miniatura”, conta. Outro diferencial está nos detalhes. Para identificar as peças como lembranças de Pelotas, Marleci criou um carimbo próprio, onde grava “Pelotas-RS” na massa antes da finalização. A solução, encontrada para substituir a escrita manual, acabou se tornando uma marca registrada do seu trabalho e hoje está presente em praticamente toda a sua produção.

Apoio

Depois de passar pela tradicional feira da avenida Bento Gonçalves e por outros espaços de comercialização, Marleci encontrou nas feiras de rua e no projeto Mulheres Empreendedoras um ambiente de crescimento profissional. Segundo ela, além da oportunidade de vender, os cursos de capacitação oferecidos pelo grupo foram fundamentais para fortalecer o negócio. “Aprendi desde como divulgar o trabalho nas redes sociais até precificar corretamente as peças e valorizar o que faço. Isso faz toda a diferença para quem empreende.”

Uma luta diária

Se o talento abre portas, a rotina exige esforço físico e muita organização. Como não possui veículo, Marleci e o marido, Marcelino Ferreira Dutra, 61, transportam toda a estrutura das feiras em uma motocicleta. Ela leva bolsas e caixas repletas de mercadorias enquanto o marido conduz o veículo. O peso diário já provocou problemas físicos em Marcelino, responsável por carregar a maior parte da carga. “Eu costumo dizer que não subo na moto, eu me encaixo nela”, brinca.

Para facilitar o transporte, o grupo chegou a utilizar um reboque comunitário, mas ele acabou sendo retirado de circulação por não conseguir regularização junto aos órgãos de trânsito. Para a artesã, que divide a arte com os cuidados da filha especial, Sulanita, de 20 anos, o transporte faria toda a diferença. Enquanto isso não vem, a criativa Marleci inventou caixas para levar seus produtos de forma que possa ser amarrada ao corpo e não pesar.

Mais feiras

Além das dificuldades logísticas, a artesã destaca a dependência das feiras para garantir renda. No início do ano, quando as atividades na praça Coronel Pedro Osório foram interrompidas e transferidas para o Laranjal, muitos artesãos enfrentaram sérias dificuldades financeiras. “As feiras são indispensáveis. A gente vive delas. Janeiro e fevereiro foram meses muito difíceis. As contas apertaram e eu não sei trabalhar com outra coisa que não seja o meu artesanato.” Para ela, ampliar os espaços permanentes de comercialização e garantir mais estabilidade às feiras são demandas essenciais para fortalecer o setor.

Mais do que um espaço de comercialização, as feiras se transformaram em uma rede de apoio entre os artesãos. “Ali é uma grande família.” Os encontros de fim de semana acabam substituindo, muitas vezes, momentos de lazer com a própria família, mas também fortalecem laços construídos ao longo dos anos de convivência.

Depois de décadas dedicadas ao artesanato, Marleci não tem dúvidas sobre o significado de empreender. “Empreender para mim é tudo. Eu gosto de criar, gosto de lidar com pessoas e gosto de atender às necessidades da minha família. Se precisar arregaçar as mangas e lutar, eu vou.” E ela vai e encara até as câmeras para divulgar seu trabalho no @mm_artesanato_gauchesco.

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