Uma pesquisa inédita do DataSenado expõe a realidade enfrentada diariamente por mulheres trans e travestis no Brasil neste Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, celebrado em 28 de junho. Pela primeira vez, em sua 11ª edição, a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher trouxe um recorte específico sobre essa população, revelando altos índices de violência, discriminação e exclusão.
O levantamento, realizado entre maio e julho de 2025 em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência, mostrou que 56% das entrevistadas sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses. Apesar disso, apenas 9% reconheceram inicialmente serem vítimas, evidenciando como a transfobia acaba sendo naturalizada no cotidiano.
Entre os principais tipos de violência relatados estão a violência psicológica (95%), agressões verbais relacionadas à identidade de gênero (40%), violência física (17%) e violência sexual (12%). Quase metade das entrevistadas (47%) afirmou já ter sofrido violência doméstica, enquanto 77% disseram conhecer outra mulher trans ou travesti que passou pela mesma situação.
A pesquisa também aponta episódios frequentes de violência institucional: 38% relataram mau atendimento em órgãos públicos, 27% sofreram discriminação em serviços de saúde e 20% foram impedidas de acessar espaços públicos. Outro dado chama atenção para a sobreposição entre transfobia e racismo: 70% das entrevistadas são pretas, pardas ou indígenas.
Realidade local
Para o coordenador da ONG Também e conselheiro nos Conselhos Municipal e Estadual LGBT, Marcos Ronei Fernandes, embora a pesquisa tenha sido realizada com um grupo reduzido de participantes, os resultados refletem o cotidiano vivenciado pela população trans em todo o país. Segundo ele, relatos de violência psicológica, física, sexual e dificuldades de inserção no mercado de trabalho fazem parte da rotina das pessoas atendidas pela entidade e pelos movimentos LGBTQIA+ do município.
Fernandes afirma que a transfobia estrutural faz com que muitas formas de violência sejam encaradas como algo normal. “A gente compara muito a transfobia ao racismo estrutural. Muitas situações passam como brincadeira ou piada, mas escondem uma violência profunda, que é a exclusão social e do mercado de trabalho.”
Ele cita que uma das consequências dessa exclusão é a invisibilidade das pessoas trans nos espaços públicos durante o dia. “É difícil encontrar pessoas trans caminhando pelo Centro durante o dia. Muitas não se sentem seguras para ocupar esses espaços.”
Avanços
Apesar dos desafios, Pelotas possui iniciativas consideradas referência no atendimento à população trans. Atualmente o município conta com dois ambulatórios especializados, vinculados à Beneficência Portuguesa e ao Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas, que oferecem acompanhamento médico, psicológico e hormonal para pessoas em processo de transição de gênero.
Na educação, escolas da Educação de Jovens, Adultos e Idosos vêm recebendo formações para acolher estudantes trans que interromperam os estudos em razão da discriminação. A Secretaria Municipal de Educação também mantém ações de capacitação para professores e equipes escolares voltadas ao combate à LGBTfobia.
Para Fernandes, ainda há necessidade de ampliar a qualificação de servidores públicos e funcionários terceirizados, especialmente em locais onde ainda ocorrem relatos de discriminação, como banheiros públicos e serviços de atendimento.
Pelotas como exílio e construção de identidade
Quem também compartilha essa realidade é a doutoranda da Universidade Federal de Pelotas e multiartista Abibatou Manicongo. Natural do Senegal, ela deixou o país após a criminalização da população LGBTQIA+ e encontrou em Pelotas a oportunidade de viver sua identidade como mulher trans.
Segundo Abibatou, o acolhimento recebido da comunidade LGBTQIA+ e do movimento negro foi fundamental para reconstruir sua vida. “Eu sou senegalesa, mas também sou uma travesti pelotense. Construí minha identidade aqui.”
Ela reconhece que o Brasil avançou em políticas públicas voltadas à população trans, como acesso à retificação de nome, ambulatórios especializados e acompanhamento pelo Sistema Único de Saúde, mas ressalta que ainda existe uma distância entre os direitos garantidos e a realidade enfrentada diariamente.
Para Abibatou, é necessário investir na capacitação dos servidores públicos e ampliar políticas de inclusão profissional. “Não basta garantir direitos na lei. É preciso que eles aconteçam na prática.”
Ela também destaca que a exclusão da população LGBTQIA+ do mercado formal de trabalho provoca impactos sociais e econômicos, mantendo muitas pessoas na informalidade.
