“Muitas vezes encontramos pessoas se alimentando diretamente do lixo”

Abre aspas

“Muitas vezes encontramos pessoas se alimentando diretamente do lixo”

Rosângela Vieira Mendes - Coordenadora do projeto “Nós por Nós”

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“Muitas vezes encontramos pessoas se alimentando diretamente do lixo”
(Foto: Reprodução)

Como surgiu o projeto Nós por Nós?
A gente começou com o Projeto Nós por Nós bem no início da pandemia, quando percebemos que muita gente não podia se movimentar e que as famílias mais carentes teriam dificuldade até para conseguir um prato de comida. Isso começou a mexer muito com a gente. Inclusive, olhando para trás, vejo que muitos projetos sociais surgiram justamente naquele período.

O primeiro dia de ação do projeto foi em maio de 2020, nós começamos atendendo famílias da Estrada do Engenho, no antigo aterro. Durante dois anos, conseguimos oferecer uma cesta básica mínima para essas famílias, com uma atenção especial à compra de leite para as crianças, considerando a idade e a necessidade de cada uma.

Também iniciamos a Cozinha Solidária, que segue até hoje. Todos os sábados distribuímos cerca de 130 refeições. Nós já chegamos a distribuir mais, mas a capacidade da cozinha depende diretamente das doações recebidas por Pix de pessoas que acompanham e acreditam no nosso trabalho.

E o que me motivou a iniciar esse trabalho foi também a minha própria experiência. Eu sou trabalhadora, mãe solo, e, naquele período, enfrentava muitas dificuldades financeiras. Estava passando necessidade e pensei: se eu, trabalhando e recebendo salário todos os meses, estou com dificuldades para pagar condomínio e outras despesas básicas, imagina quem não tem nenhuma renda.

Foi esse sentimento de empatia que me fez sair de casa e agir. E talvez justamente por ter vivido essas dificuldades, eu não julgue quem está pedindo um prato de comida. Hoje, não atendemos apenas pessoas em situação de rua, mas também muitas famílias que enfrentam situações de vulnerabilidade.

E qual é o sentimento de fazer parte do projeto?
É um sentimento muito contraditório. Ao mesmo tempo em que vemos tanta dor e desejamos que essa situação acabe o mais rápido possível, também sentimos que recebemos muito mais do que entregamos. Todos os sábados os voluntários saem para as rotas de distribuição. A comida é preparada na cozinha cedida pelo Sindicato da Alimentação e distribuída em três rotas: Centro-Três Vendas, Centro-Fragata e Centro-Porto.

A acolhida das pessoas é sempre muito calorosa. Existe muito preconceito em relação à população em situação de rua, mas quem participa das entregas encontra gratidão. Eles esperam pelo alimento, elogiam a comida, agradecem e sabem que existe toda uma rede de apoio por trás daquele gesto. Muitas vezes fazem orações, cantam ou deixam mensagens de agradecimento para todos os envolvidos.

Imagino que, muitas vezes, essa refeição seja a única alimentação da pessoa em dois ou três dias. Isso infelizmente é recorrente?
Sim. Muitas vezes encontramos pessoas se alimentando diretamente do lixo, procurando comida nos contêineres. São situações que marcam muito.

Lembro de um caso em que encontramos um morador em situação de rua e perguntamos se ele já havia recebido uma refeição naquela noite. Ele respondeu que não e, ao receber o alimento, disse: “Nem no lixo eu estou encontrando mais comida. Já procurei em todos os contêineres e não encontrei nada. Que Deus abençoe vocês por estarem me encontrando aqui e me dando esse prato de comida”.

Hoje, quantos vocês são? Vocês estão procurando mais voluntários? E como as pessoas podem ajudar o projeto?
Hoje nós somos em torno de 30 voluntários, que vão se revezando por escalas. O voluntariado depende muito da disponibilidade de cada pessoa, então organizamos quem pode participar em cada sábado. Também precisamos de voluntários que tenham carro para realizar as rotas de distribuição, por isso estamos sempre precisando de mais gente, tanto para atuar na cozinha quanto para entregar as refeições. Quem quiser ajudar pode participar do preparo dos alimentos, descascando uma abóbora, cortando uma cebola, ajudando a cozinhar, ou então colaborar nas rotas de entrega.

As ações acontecem todos os sábados. A equipe se concentra no Sindicato da Alimentação para preparar as refeições e, por volta das 18h, elas começam a ser servidas. Às 19h, os alimentos já estão sendo distribuídos pelas rotas da cidade.

Quem preferir contribuir financeiramente pode fazer uma doação pelo Pix do projeto, que é o telefone (53) 98428-1876, em nome de Vilma Vieira. Todo centavo arrecadado é destinado exclusivamente às ações do Nós por Nós. Fica o convite para quem quiser se unir a nós, seja como voluntário ou apoiador, porque toda ajuda é muito bem-vinda.

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