A relação entre saúde mental e doenças cardiovasculares é um assunto que tem despertado atenção no meio médico. Segundo o cardiologista Dr. Felipe Marques, um estudo recente mostra o impacto da solidão e do sentimento de desconexão social na saúde do coração. Marques explica que a solidão pode aumentar o risco de infarto, AVC, arritmias e até doenças nas válvulas cardíacas, além de destacar a importância do cuidado emocional na prevenção e no tratamento cardíaco.
A solidão realmente pode afetar a saúde do coração?
Realmente é um assunto um pouco curioso, porque foge dos fatores de risco tradicionais. A gente está acostumado a ouvir sobre tabagismo, colesterol, glicose, sedentarismo, como fatores de risco comuns para o desenvolvimento de doença cardíaca. Quando surge a questão solidão, se imagina em tristeza, em depressão, mas não em maior chance de desenvolver uma doença cardíaca. E é o que os estudos têm nos mostrado. Não só esse estudo recente, que fez uma associação direta de solidão, de desconexão com pessoas, percepção de desconexão, não necessariamente só a solidão por si só, mas esse sentimento, essa condição, se associa a uma maior chance de desenvolvimento de doença valvar cardíaca também.
O que os estudos já mostravam antes dessa nova pesquisa?
Já era consolidado que essas pessoas que se sentiam só ou que eram sós poderiam ter mais infarto, mais AVC, mais arritmias cardíacas e morrer mais precocemente. Mas recentemente vimos que também se associa a uma doença específica das válvulas do coração. Foi um estudo publicado num jornal de grande impacto mundial, que é o The American Journal of Cardiology, que mostrou essa forte correlação entre solidão e doença valvar cardíaca.
Como a solidão aumenta o risco cardíaco?
Duas coisas. A solidão, ou vamos ampliar um pouquinho o espectro, a saúde mental, causa de forma direta e indireta o maior risco cardíaco. De forma indireta, quem está se sentindo só, está num sentimento de solidão ou de desconexão com as pessoas, acaba tendo mais chance de desenvolver fatores de risco. Por exemplo, uma pessoa só ou desmotivada fuma mais, bebe mais, tem menos motivação para praticar atividade física, para fazer uma dieta adequada. Isso por si só sabemos que vai levar a uma maior chance de desenvolver doença cardíaca. De forma direta, pessoas mais sós ou com essa percepção têm alterações cardiometabólicas que favorecem o aumento da frequência cardíaca, o aumento da pressão arterial, o aumento de marcadores inflamatórios, que de forma direta podem causar um dano cardíaco.
Quem já tem doença cardíaca também sofre impacto da solidão?
Pacientes que já têm doença cardíaca estabelecida e estão depressivos, estão ansiosos, estão com um sentimento de solidão, eles vão ser menos adeptos, vão ter menor adesão ao tratamento e aos cuidados. Então a gente sabe que pacientes já doentes cardíacos, que se sentem sós ou que estão sós, eles têm pior desfecho. Eles morrem mais cedo, eles se cuidam menos, têm mais internação, têm pior qualidade de vida.
Os jovens também entram nesse grupo de risco?
Esse foi um estudo que pegou 400 mil pessoas, foi muita gente observada ao longo de 14 anos. A média de idade foi 55 anos, mas a gente vê uma maior percepção de solitude, de solidão em jovens, entre 18 e 22 anos. É uma faixa que está muito estimulada, passa muito tempo no celular, nas telas, televisão e pouco tempo conectada com pessoas. Aí quando vê, não tem uma pessoa para contar, para conversar, nas situações boas, nas situações ruins. Então acaba se desconectando e gerando esse sentimento mais frequente de solidão.
Quando procurar um cardiologista?
A partir dos 30 anos, todo mundo já merece uma avaliação cardiológica. Isso porque tem condições que a gente nasce com elas. Tem algumas alterações estruturais, algumas alterações elétricas, que a gente faz um diagnóstico simples, numa conversa, num eletro, e quanto antes diagnosticado, melhor.