As regiões Norte e Noroeste do Rio Grande do Sul estão sendo afetadas por um grande acumulado de chuva, decorrente de uma frente estacionária que concentra a instabilidade na metade norte do território. Com a condição climática, a Defesa Civil Estadual emitiu um alerta para inundação no rio Uruguai e a Defesa Civil de Porto Alegre projeta o aumento no nível do lago Guaíba.
O cenário de possível elevação no nível de rios e arroios mais ao norte do Rio Grande do Sul fazem com que a população da Zona Sul, atingida pela elevação das águas em 2024, remonte na sua memória as angústias daquele momento. No entanto, os meteorologistas tranquilizam a comunidade, a partir do monitoramento contínuo da Lagoa dos Patos.
O Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex) da Furg realiza o acompanhamento do nível da Lagoa dos Patos em diferentes pontos da região Sul. De acordo com a coordenadora do órgão, Elisa Fernandes, até o momento, os níveis da lagoa estão normais e ainda não há reflexos ou projeções de impactos alarmantes para a região relacionados às chuvas no norte do Estado.
Com relação à possível elevação do Guaíba, o Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil (Cemadec), afirma que, mesmo com a redução da chuva em Porto Alegre, o nível deverá apresentar elevação gradual nos próximos dias. O que manterá ativo o alerta da Defesa Civil da capital gaúcha até o domingo, 5.
A atenção está voltada principalmente às regiões ribeirinhas das Ilhas que podem sentir primeiro os reflexos da elevação dos níveis.
Segundo o meteorologista do Ciex/Furg, Ricardo Gotuzzo, o cenário atual difere do observado no evento climático extremo passado por conta das mudanças do clima que estão sendo observadas nos últimos anos.
Diferença para 2024
Ao analisar o contexto observado nos últimos dias na metade norte gaúcha, o meteorologista do Ciex destaca que, embora chuvas volumosas e frentes frias sejam comuns no inverno no Sul, hoje esses eventos ocorrem sob uma atmosfera mais quente e, portanto, com maior energia. Esse aquecimento global de fundo eleva as temperaturas da região acima da média e funciona como um combustível para as instabilidades, que podem ser confundidas com uma consequência do El Niño. “Por ter mais energia disponível, o comportamento do tempo neste momento acaba se assemelhando aos padrões de quando o El Niño está ativo, o que pode causar confusão, mas a causa principal desta dinâmica recente está associada às transformações climáticas gerais”, reitera.
Segundo Gotuzzo, o maior aporte de umidade observado no Norte e no Noroeste gaúcho gera frentes estacionárias e chuvas volumosas semelhantes aos efeitos do fenômeno. “No entanto, os prognósticos indicam que o sinal do El Niño deve se consolidar e se estabelecer de forma mais evidente na região a partir de meados de julho. Os episódios atuais funcionam como uma resposta precursora, mas a tendência é que o impacto típico do fenômeno ganhe maior intensidade e regularidade a partir dos próximos meses, com ápice para os meses de primavera”, explica o meteorologista.
Sob iminência do fenômeno, já confirmado pela agência norte-americana que monitora as anomalias climáticas, o diretor da Faculdade de Meteorologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Marcelo Felix Alonso, reforça que as nomenclaturas “Super El Niño” e “El Niño Godzilla” não fazem parte da previsão de possíveis impactos no hemisfério Sul. O pesquisador afirma que a projeção indica uma intensidade muito forte, com ápice em setembro.
Além disso, Félix afirma que um cenário positivo que está sendo observado pelos meteorologistas é a condição de estiagem. Diferente do observado no período pré-enchentes de 2024, quando o Rio Grande do Sul já havia passado por período de grandes precipitações no ano anterior e, com isso, o solo encontrava-se encharcado quando os temporais iniciaram. Neste momento, o Estado – e em especial a Zona Sul – passa por um período de estiagem, onde o solo está mais seco do que no momento do maior desastre climático da história gaúcha.
Em ação integrada, o Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas (CPPMet/UFPel) e o Ciex/Furg projetam a elaboração de previsões de consenso, com dados trimestrais, de forma a garantir a conformidade das informações regionais durante o período de maior atenção para o fenômeno.
Previsão para julho
Apesar da confirmação do El Niño estar em atuação no hemisfério Sul, Félix reforça que o maior impacto se dará durante a primavera, com estimativa de continuidade até meados de março de 2027.
Para este mês, a perspectiva é de chuvas abaixo da média e temperaturas um pouco acima da média histórica de julho. “Não quer dizer que vai ser seco, mas vai ser menos chuvoso que a média histórica de 30 anos, mas, tradicionalmente, julho é um mês chuvoso, com incursões de dezenas de frentes frias”, diz.
