Estado testa solução biológica com uso de drones contra carrapato

iniciativa

Estado testa solução biológica com uso de drones contra carrapato

Pesquisadores avaliam produto em Hulha Negra, com tecnologia que pode transformar o controle do parasita no campo

Por

Estado testa solução biológica com uso de drones contra carrapato
Ao invés de combater o parasita nos animais, uma fórmula elimina os carrapatos ainda no solo (Foto: Fernando Dias - Seapi)

Pesquisadores da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) avançam na validação a campo de um produto biológico inédito para o controle do carrapato bovino, com aplicação direta nas pastagens por meio de drones. A fase mais recente dos testes ocorreu na última semana em Hulha Negra, na Campanha gaúcha, marcando um novo passo rumo a uma alternativa mais sustentável ao modelo tradicional baseado em químicos.

Desenvolvido pelo Centro Estadual de Diagnóstico e Pesquisa em Saúde Animal Desidério Finamor (IPVDF), o projeto propõe uma mudança de paradigma: em vez de tratar o animal com produtos químicos, a estratégia atua no ambiente onde o carrapato passa a maior parte do seu ciclo de vida.

A iniciativa parte de uma lacuna tecnológica. Atualmente, não há produtos disponíveis, em escala pecuária, voltados ao controle de parasitas no ambiente. “A maior parte dos carrapatos está na pastagem, aguardando o hospedeiro. Mesmo assim, o controle segue concentrado no animal”, enfatiza o pesquisador e diretor do IPVDF, José Reck.

Reck explica que o estudo utiliza microorganismos presentes no solo, como fungos e bactérias, selecionados por sua capacidade de atingir o carrapato sem causar danos aos bovinos, aos seres humanos ou ao ambiente. Esses agentes biológicos são concentrados em uma formulação e aplicados diretamente no campo, com apoio de drones, o que amplia a escala e a eficiência da operação.

Conhecimento e inovação

Iniciado no começo de 2025, o projeto está em fase de validação em escala real, com monitoramento contínuo das áreas experimentais. Atualmente, dois tratamentos estão em teste, com avaliação sistemática de custo-benefício. “A previsão é manter os experimentos até julho, quando a chegada do inverno reduz naturalmente a população de carrapatos, permitindo um balanço mais preciso dos resultados”, prevê Reck.


O Estado concentra um dos principais focos de carrapato bovino nas Américas (Foto: Fernando Dias – Seapi)

A proposta combina conhecimentos já consolidados na agricultura, onde o uso de microorganismos no controle de pragas é amplamente difundido, com o manejo sanitário animal. “Trata-se de uma abordagem que considera todo o sistema produtivo, e não apenas o animal”, destaca a professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), diretora da Agência de Inovação e uma das pesquisadoras integrantes do projeto, Patrícia Golo.

Segundo ela, o diferencial está na atuação integrada sobre todas as fases do parasito. “Avaliamos a infestação nos bovinos, as fases no ambiente e a persistência do fungo no solo, em um experimento conduzido em escala próxima à realidade do produtor”, afirma.

A pesquisa representa um avanço em uma linha de trabalho iniciada em 2012 no IPVDF, voltada ao controle biológico de carrapatos. Até recentemente, os esforços estavam concentrados no desenvolvimento de soluções para aplicação direta nos animais. A mudança para o controle no ambiente marca um novo estágio da investigação.

Problema estrutural no RS

O Rio Grande do Sul concentra um dos principais focos de infestação de carrapato bovino nas Américas. A combinação entre o uso predominante de raças europeias, mais suscetíveis, e condições climáticas favoráveis ao parasita ao longo do ano intensifica o problema.

Como consequência, o Estado lidera o uso de carrapaticidas químicos, o que acelera o desenvolvimento de resistência. Esse cenário cria um ciclo difícil de romper: quanto maior o uso de químicos, menor sua eficácia ao longo do tempo, aponta Reck.

Acompanhe
nossas
redes sociais