Michael: o rei do silêncio

Opinião

Helena Tomaschewski

Helena Tomaschewski

Estudante de Direito

Michael: o rei do silêncio

Por

Eu e meu namorado fomos ver Michael – o filme do Michael Jackson. Na metade da exibição, houve problemas com o som. O filme parou, as luzes foram acesas, ganhamos um voucher para voltarmos e, depois de um tempo, tudo estava aparentemente certo. Nos últimos dez minutos, porém, novamente ficamos sem som. É um pouco difícil ver o filme do rei do pop sem, bom, o pop. Mas tudo bem, pensei: “fazer o quê?”.

Meu namorado, por outro lado, pensava diferente e em uma maneira de ganhar nosso dinheiro de volta, já no site do cinema: “É um absurdo. E a pior parte é que não fizeram nada sobre esse final. O que vão fazer? Nos dar mais um voucher para voltarmos?”. Lipe ficou assim até irmos dormir, enquanto eu cantava o que consegui ouvir do Michael Jackson, escovando os dentes. Foi aí que me assustei com o que tinha acontecido. Por muito tempo, eu não via quase nenhuma semelhança entre meus pais e meu namorado. Mas todos dizem a mesma coisa: “Estou pagando, devo receber pelo serviço que comprei!”.

(In)felizmente, uma das causas mais defendidas pelos meus pais é a do consumidor. Juro que eles não andam com o Código de Defesa do Consumidor debaixo do braço, apenas pelo medo do julgamento. Meu pai ganhou de presente de Dia dos Pais uma garrafa térmica que prometia durar mil horas. A dele durou 99 horas. Foi o suficiente para entrar em contato, devolver a garrafa e ficarmos sem garrafa térmica em casa por um mês, até ele receber outra que durasse as mil. Do que valeu tudo isso? Sua honra como consumidor, aparentemente.

Tenho vários exemplos da minha mãe. Em um deles, ficamos mais ou menos uma hora na fila de uma loja de roupas, onde ela resolvia questões do cartão da empresa — ou algo do tipo —, o que fez meu irmão e eu querermos sumir. Mas, claro: nunca mais voltamos lá! Por uma questão de honra. E sim, já tentei explicar que eles não sentem nossa falta. Não quero estar à mesa caso algum prato do restaurante venha errado. Talvez eles citem algum artigo ou chamem o Celso Russomanno.

Enfim, aparentemente, o tipo de namorado tem, sim, a ver com seus pais. O meu só tem o traço mais estranho deles.

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