A coordenadora adjunta do curso de Letras Libras – Literatura Surda da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Ângela dos Santos, fala sobre a formação inédita oferecida pela instituição, os avanços na educação de surdos e a proposta de inclusão da Libras no currículo das escolas municipais de Pelotas.
O curso de Letras Libras – Literatura Surda é uma novidade. O que ele abrange?
É um curso de licenciatura que forma professores de Libras e também professores de literatura surda. É o único no Brasil com essa formação específica. Os demais cursos formam apenas professores de Libras, e nós assumimos esse desafio de formar também para a área da literatura surda.
Literatura surda ainda é um campo pouco conhecido?
Sim, é uma área recente, com poucas pesquisas, mas com muitas produções, inclusive brasileiras. Temos grandes nomes no país e, aqui na UFPel, contamos com o professor Fabiano Rosa, que é coautor de obras como Cinderela Surda e Patinho Surdo. Isso fortalece essa oferta no curso.
Quanto tempo dura a formação e como é o ingresso?
O curso é noturno, com duração de nove semestres, ou seja, quatro anos e meio. O ingresso pode ser pelo Sisu, pelo PAVE e também por um processo seletivo específico com vagas reservadas para pessoas surdas. Neste ano, tivemos 16 estudantes surdos ingressando, com prova acessível em Libras.
Como você avalia os avanços na área?
Ter Libras nas universidades já é um grande passo. Mas ainda é uma língua que circula muito restrita à comunidade surda e a quem convive com ela. Por isso, estamos propondo ampliar esse acesso.
Há uma proposta em debate em Pelotas sobre isso. Do que se trata?
Estamos propondo, em parceria com a Câmara de Vereadores, a inserção da disciplina de Libras no currículo das escolas municipais, do sexto ao nono ano. A ideia é que todas as crianças, surdas ou ouvintes, aprendam a se comunicar. Isso amplia a acessibilidade em todos os espaços da cidade.
Qual é o objetivo dessa proposta?
Tornar Pelotas mais acessível. Que uma pessoa surda consiga se comunicar no supermercado, numa loja, em qualquer lugar. A inclusão tem que ser social, para além da escola
O que mudou ao longo dos anos na percepção da sociedade?
Hoje as pessoas entendem mais que Libras é uma língua, embora ainda haja confusão com o termo “linguagem”. Também vemos mais respeito e mais espaços sendo ocupados por pessoas surdas, inclusive na universidade. Mas ainda há dificuldades no acesso à saúde, ao trabalho e a outros serviços.
Pelotas tem histórico de avanços nessa área?
Sim. Pelotas reconheceu a Libras em 2001, antes mesmo da lei nacional. Também criou o cargo de intérprete antes do reconhecimento da profissão e conta com uma central de intérpretes. A cidade já é pioneira e pode avançar ainda mais.