Atividade ou ativar a idade?

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Atividade ou ativar a idade?

Grupo de atividade física para idosos alia saúde, autonomia e convivência em Pelotas

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Atividade ou ativar a idade?
Aulas incluem musculação, pilates e exercícios livres (Foto: Divulgação)

A quinta-feira chuvosa dava sinais que a aula na academia Energym estaria vazia. Mas a turma do 60+ compareceu em massa e, como é de praxe, lotou o espaço reservado à prática de atividade física diferenciada que já se alonga por uma década. Com exercícios variados, as alunas que buscam muito mais que a saúde física, encontram qualidade de vida, amizade, companhia e compartilhamento. O Corpo e Mente acompanhou um dia de aula e o clima cinzento do dia ganhou cores, movimentos e muitos abraços.

Antes da aula, é fundamental colocar o assunto em dia. E como tem assunto! Mesmo só a prática regular de atividade física, aliada ao convívio social, tem se mostrado uma das principais estratégias para promover qualidade de vida na terceira idade. Em Pelotas, um grupo voltado exclusivamente para pessoas com mais de 60 anos vem consolidando esse conceito ao reunir exercícios variados e encontros de integração que fortalecem corpo e mente.

Idealizado pelo educador físico Eduardo Wieczorek Coutinho, 42, o projeto surgiu há cerca de 12 anos, a partir da percepção de que muitos alunos não se identificavam com o ritmo das aulas convencionais de academia. “Eu já trabalhava com ginástica e percebia que havia um limite de faixa etária. Muitas pessoas mais velhas não se sentiam pertencentes àquele ambiente, achavam as aulas muito intensas ou fora do ritmo delas”, explica.

A partir disso, Dudu, como é carinhosamente tratado pelas alunas, decidiu criar uma proposta específica para o público 60+, com foco na inclusão, no respeito ao tempo de cada participante e na diversidade de estímulos. “É um público ativo, que quer continuar se movimentando, mas precisa de uma abordagem adequada. A ideia foi justamente oferecer esse espaço”, afirma.

Atualmente, o grupo reúne entre 40 e 45 alunas frequentes nas aulas presenciais (Foto: Divulgação)

Atualmente, o grupo reúne entre 40 e 45 alunas frequentes nas aulas presenciais e mais de 50 participantes em um grupo de interação. As atividades ocorrem duas vezes por semana, com turmas pela manhã e à tarde, e incluem musculação, circuito funcional, alongamento, pilates solo, caminhadas, exercícios com faixas elásticas (TheraBand) e aulas de ritmos.

A variedade é um dos pilares da proposta. “A gente não trabalha com uma sequência fixa. Cada aula é diferente, o que estimula a participação e evita a monotonia. Elas chegam sem saber exatamente o que vai ter no dia, e isso gera motivação”, destaca o educador físico que confessa ter ganho mais de 50 mães. “Elas cuidam de mim”, brinca. Segundo ele, esse vínculo se manifesta em gestos simples do cotidiano. “Às vezes elas trazem algo de casa, um alimento, um carinho. Da mesma forma, eu também procuro valorizar datas comemorativas, presentear, manter esse cuidado”, diz.

Impactos físicos e prevenção

Entre os principais benefícios observados estão o ganho de força muscular, melhora da mobilidade, equilíbrio e autonomia, fatores essenciais para a prevenção de quedas e manutenção da independência na rotina. “O idoso não pode ficar parado. Quando para, começa a sentir dores, perde mobilidade e isso vira um ciclo difícil de reverter”, pontua uma das participantes.

A aposentada Maria da Graça Vignolo de Serqueira, 70, que frequenta o grupo há cerca de uma década, reforça a importância da continuidade. “Ajuda em tudo: na locomoção, na disposição e na saúde em geral. A gente precisa se manter ativa”, afirma. Para ela, o retorno às atividades foi decisivo após um período de luto. “Perdi meu marido no ano passado e fiquei muito reclusa. Voltar para o grupo foi essencial para seguir em frente”, relata emocionada.

Rede de apoio

Mais do que um espaço de exercícios, o grupo se transformou em uma rede de apoio emocional. Segundo Coutinho, muitas participantes chegam em momentos de fragilidade, como após perdas familiares ou mudanças na rotina. “Elas encontram aqui um ambiente de acolhimento. Não é um grupo de terapia, mas a troca acontece naturalmente. Elas compartilham vivências, dificuldades e conquistas”, relata.

Participantes melhoram a saúde física e constroem vínculos sociais (Foto: Divulgação)

A construção de vínculos é rápida, impulsionada pela identificação entre histórias de vida semelhantes. “Uma começa a falar de um problema, outra se reconhece naquela situação, e assim elas vão se ajudando. Isso cria uma conexão muito forte”, explica.

Próxima de completar 87 anos, Ivanilda Müller Bednarski, ingressou no grupo após mudar de cidade. A experiência tem sido fundamental para enfrentar o isolamento. “Eu não conhecia ninguém aqui. Agora já tenho companhia, fiz amizades. Isso é muito importante”, conta. A assistente social aposentada Elizabeth Madruga, 77, revela o segredo da longevidade: ativar a idade. “A turma é ótima, os encontros são muito bons. A gente comemora aniversários, faz passeios, conversa. É como uma família”, resume.

O projeto também prevê encontros mensais fora do ambiente das aulas, com temáticas que variam ao longo do ano, como Páscoa, Dia das Mães e confraternizações. Inicialmente voltados apenas para aniversários, os encontros passaram a ter uma proposta mais ampla de integração. “É um terceiro momento de convivência, fora da rotina da academia. Isso fortalece ainda mais os vínculos e faz com que elas se sintam parte de um grupo”, afirma Coutinho.

Festa de fim de ano

Além disso, há um encontro especial de fim de ano, marcado por depoimentos emocionados das participantes. “É um momento muito forte, porque elas falam sobre o impacto do grupo na vida delas. Muitas vezes surgem lágrimas, porque são histórias de superação, de recomeço”, conta.

Respaldo científico 

Evidências científicas apontam a atividade física como fator de proteção não apenas para doenças crônicas, mas também para a saúde mental, reduzindo sintomas de ansiedade e depressão. A pesquisa “Um pequeno passo, uma grande economia: o impacto da atividade física nos casos de demência e nos custos econômicos no Brasil” realizada por pesquisadores dos programas de Pós-graduação em Epidemiologia e em Ciências Médicas da UFRGS, revela um alto custo econômico da demência aos sistemas de saúde por conta da falta de atividade física.

Natan Feter: Doutor em Educação Física, epidemiologista e pesquisador da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

“A nossa pesquisa mostra que a inatividade física tem um impacto significativo tanto no aumento dos casos de demência quanto nos custos para o sistema de saúde no Brasil”, revela o pesquisador pelotense Natan Feter. A projeção é bastante preocupante, segundo ele, o número de pessoas com demência deve mais do que triplicar nos próximos 25 anos, chegando a cerca de 5,7 milhões de casos até 2050, o que pode gerar um custo total de aproximadamente R$ 220 bilhões, sendo a maior parte desse valor destinada ao SUS.

“Quando a gente olha especificamente para o papel da atividade física, os dados são muito claros. Estimamos que cerca de meio milhão de casos de demência poderiam ser prevenidos entre 2019 e 2050 com a prática regular de atividade física.“, revela. Além disso, a inatividade já representa um custo importante: cerca de R$ 23 bilhões nesse período inicial, aponta a pesquisa.

E mesmo mudanças pequenas podem ter um impacto relevante. “Se pessoas sedentárias passarem a fazer pelo menos 10 minutos de atividade física por dia, isso pode gerar uma economia de até R$ 16 bilhões até 2050”.

O pesquisador ressalta que “esses resultados reforçam que investir em políticas públicas de promoção da atividade física é fundamental, não só para melhorar a saúde física e mental da população, mas também para reduzir a carga econômica e social da demência no país.”

 

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