“A exposição ajuda a gente a compreender que o trabalho do conservador-restaurador não é um trabalho de artista”

Abre aspas

“A exposição ajuda a gente a compreender que o trabalho do conservador-restaurador não é um trabalho de artista”

Juliana Rodrighiero, professora no Departamento de Museologia, Conservação e Restauração da UFPel

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“A exposição ajuda a gente a compreender que o trabalho do conservador-restaurador não é um trabalho de artista”
(Foto: Reprodução)

O Laboratório de Materiais e Técnicas (Lamtec), vinculado ao Departamento de Museologia, Conservação e Restauração da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), promove hoje,
às 17h30 no Museu do Doce, a exposição “A experimentação de materiais e técnicas”.  Em paralelo, a exposição acompanha o processo de restauração da obra “Dalila, a vendedora de doces”, da artista Madu Lopes. A ação contará com um laboratório de restauração adaptado para realização das atividades diante do público, destacando aspectos técnicos, simbólicos e culturais envolvidos na intervenção.

A professora do departamento, Juliana Rodrighiero, que é egressa do curso da UFPel e retornou para ser efetiva no quadro docente, explica a idealização do evento e realiza uma retomada da atuação profissional de restauradores em Pelotas.

O que é a exposição?

Iremos apresentar e expor alguns trabalhos dos alunos que desenvolveram ao longo do último ano, com suporte em papel, em tela e objetos tridimensionais. Vamos explorar os diferentes usos de técnicas e materiais, que também é uma parte extremamente importante para nós, conservadores e restauradores.

A exposição ajuda a gente a compreender que o trabalho do conservador-restaurador não é um trabalho de artista. O artista tem essa criatividade, essa liberdade técnica, e nós seguimos uma metodologia muito específica. Nós vamos recuperar, na medida do possível, todas as questões estéticas, estruturais, de uma obra.

Como o público pode acompanhar a exposição?

Essa exposição está acontecendo em paralelo também com uma outra atividade, que é a restauração da escultura do Madu Lopes, a Dalila, vendedora de doces, que é uma escultura de arte contemporânea, feita em papietagem. Ela é uma escultura que tem mais de três metros de altura, de uma técnica bastante específica, que utiliza tiras de papel com cola adesiva. Ela tem uma estrutura metálica, forrada com uma espuma, e depois tem todo esse envelopamento feito com cola e papel. A obra foi feita em 2017 por projeto cenográfico da Fenadoce e depois ela foi cedida para o Museu do Doce.

Quem visitar a exposição poderá acompanhar a restauração?

Exatamente, a gente vai ter esse laboratório adaptado, porque como a gente não tem como transportar essa obra, vamos fazer a exposição integrada com essa experimentação de materiais e, ao mesmo tempo, o público que visitar a exposição vai ter acesso ali a gente trabalhando. A ideia é que a gente fique até o final de julho, que vai pegar o período da Fenadoce também, para fazer algumas atividades com as escolas.

Qual a importância da obra?

A Dalila é uma escultura bastante importante, ela tem uma representatividade. Ela representa uma mulher negra, que está dentro da instituição. Ela tem uma expressividade bastante importante e estar fazendo essa restauração representa muito. O Museu do Doce está financiando a parte da restauração.

Então todos esses elementos que acompanham os bens culturais, nós conservadores e restauradores somos os responsáveis por trazer de volta questões estéticas, questões artísticas e valorizar e salvaguardar então esses bens para gerações futuras.

A UFPel é uma das poucas universidades que formam restauradores?

Exatamente, nós somos um dos quatro cursos na verdade. No Brasil, a gente tem um aqui em Pelotas, um na UFRJ, na UFMG e agora mais recentemente lá no Belém do Pará. O nosso curso sempre teve muitos alunos de fora, de todas as regiões do Brasil, mas, recentemente, devido à repercussão que a gente está tendo em cenário nacional e também internacional, o nosso curso está tendo bastante oferta. O curso  está desenvolvendo trabalhos, desenvolveu trabalhos em Brasília, a professora Andréa Baquetino coordenou os trabalhos de recuperação do acervo de 8 de janeiro. E atualmente a gente também está fazendo dois trabalhos em Brasília, coordenados pela professora Karen Mirella, que é a restauração do painel do STJ, e da pintura mural da Gilda Reis no MEC.

Por ser um curso noturno, ele tem uma característica bem peculiar que é um público bem diverso. A gente tem algumas pessoas que são aposentadas, pessoas que estão vindo de uma segunda graduação, pessoas que querem mudar de profissão, pessoas que recém finalizaram o ensino médio e pessoas que vieram de vários lugares do Estado e do Brasil.

Como foi participar da recuperação da Catedral Notre Dame, em Paris?

O incêndio dela foi em 2019. A inauguração dela já faz quase dois anos. Foi 8 de dezembro de 2024. Foi uma grande experiência. Eu considero que foi a experiência da vida. Porque foi um canteiro de verdade, bastante exigente em nível técnico, em nível metodológico, por se tratar de um patrimônio que é mundial. Então a gente tinha membros da Unesco, de diversos setores na área do patrimônio. Então foi uma experiência extraordinária onde fiquei pouco mais de um ano fazendo a restauração das pinturas murais das capelas Porto Rouge, Saint Germain e também na finalização dos móveis da Sacristia.

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