A Zona Sul no protagonismo da Guerra Civil Farroupilha

História

A Zona Sul no protagonismo da Guerra Civil Farroupilha

O ministro da Fazenda da República Rio-Grandense, Domingos José de Almeida, teve papel fundamental no movimento

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A Zona Sul no protagonismo da Guerra Civil Farroupilha
Restos mortais de Domingos de Almeida estão no Cemitério do Fragata. (Foto: Cíntia Piegas)

Os ideais farroupilhas de justiça econômica, autonomia e contestação de impostos considerados injustos em 1835 ainda dialogam com os debates atuais sobre reforma tributária, taxação de importados e incentivo à produção nacional. Cento e noventa anos depois do 20 de Setembro, a narrativa ganhou novos protagonistas na reparação histórica da participação dos negros à frente das batalhas e ainda revela feitos de figuras ilustres da Zona Sul do Estado, peças-chave da República Rio-Grandense. Entre eles, o mineiro-pelotense Domingos José de Almeida.

O professor do Departamento de História da Universidade Federal de Pelotas e do Programa de Pós-Graduação em História da mesma universidade, Jonas Moreira Vargas, conta que Pelotas, pela posição estratégica, foi alvo de muitas disputas e, por vezes, estava sob comando dos farrapos e em outras do Império. Um dos episódios militares mais conhecidos foi o embate que opôs farroupilhas e legalistas em 7 de abril de 1836. Na ocasião, o sobrado da esquina da atual rua Félix da Cunha com a praça Coronel Pedro Osório serviu de refúgio aos imperiais contra um batalhão de 500 soldados liderados pelo general Lima e Silva. Os legalistas não resistiram e caíram prisioneiros dos farroupilhas. No revés das batalhas, os rebeldes derrotados levavam escravos e estâncias eram saqueadas.

Os charqueadores contrários aos rebeldes deram aporte financeiro e estratégico aos legalistas. Nomes como Domingos de Castro Antiqueira, João da Silva Tavares e o comerciante João Francisco Vieira Braga, após a guerra, foram condecorados como forma de compensação pelas perdas. Historiadores da época, segundo o livro de Mário Osorio Magalhães – Opulência e Cultura na Província de São Pedro do Sul – um estudo da história de Pelotas (1860-1890), relatam que: “… mais de três quartos da população de Pelotas abandonou o município por causa das constantes tomadas e retomadas…” e que a cidade teria ficado praticamente deserta. Só a produção de charque reduziu, nos primeiros seis anos de guerra, a um sexto da média anterior. Mas a Revolução Farroupilha fortaleceu o Estado e seus líderes passaram a participar mais das decisões do Império.

Ministro da Fazenda

Considerado o cérebro do movimento, Domingos José de Almeida foi vereador da província por cinco vezes, participou da sociedade que lançou a arca do Vapor Liberal (1832) e fundou a cidade de Uruguaiana. Foi preso duas vezes e, por vezes, alvo de humilhações e calúnias. Não recebeu, durante a Revolução, nenhum vencimento devido. Diante da numerosa família e de poucos escravizados, pediu de volta a charqueada que havia arrendado. Para retomar os negócios, fez empréstimos e, com limitações financeiras, morreu em 6 de maio de 1871, de “amolecimento cerebral”, conforme certidão de óbito. Seus restos mortais estão em um túmulo simples no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula.

“A prosperidade enche os homens pequenos ao ponto de lhes fazer esquecer que eram, que nada são e que não hão de ser”, escreveu Domingos de Almeida. Conseguiu o feito de, ainda no período imperial, receber uma homenagem como republicano: o obelisco que fica em frente à sua charqueada, no Areal, e um busto na praça Coronel Pedro Osório.

Líderes farroupilhas

Figuram ainda os rio-grandinos Antônio de Souza Netto, Manuel Lucas de Oliveira, o canguçuense Teixeira Nunes e, claro, Bento Gonçalves, que viveu boa parte de sua vida em uma fazenda em Cristal. Nela trabalhava Antônio Ribeiro, escravizado de Bento Gonçalves, que se tornou corneteiro na primeira investida farroupilha contra Porto Alegre, em 1835, no combate da Ponte da Azenha. Sua presença começa a narrar a participação negra na Revolução.

Rio Grande

De Rio Grande vem Antônio de Souza Netto, um dos maiores líderes farroupilhas. Coronel da Guarda Nacional de Bagé, participou da reunião que decidiu pelo início da Revolução Farroupilha, em 1835, e organizou a cavalaria farroupilha, tornando-se general da primeira brigada republicana. Em 1836, após a Batalha do Seival, proclamou a República Rio-Grandense e participou de combates importantes, como o cerco a Porto Alegre, a retomada de Rio Pardo e batalhas em Caçapava, Candiota e Triunfo. Depois de lutar na guerra contra Rosas, foi levado a Corrientes, na Argentina, e faleceu em 2 de julho de 1866. Em 1966, seus restos foram transferidos para um mausoléu em Bagé.

Canguçu

Joaquim Teixeira Nunes, conhecido como o Gavião, nasceu em Canguçu em 1802 e iniciou sua trajetória militar na Guerra Cisplatina, participando da Batalha do Passo do Rosário. Republicano, foi um dos principais líderes da Revolução Farroupilha, atuando em combates como o de Rio Pardo, em 1838, e na expedição à Laguna, em 1839, quando conheceu Giuseppe e Anita Garibaldi. Tornou-se o segundo comandante do Corpo de Lanceiros Negros, formado por escravizados libertos, sendo considerado o maior lanceiro de sua época e lembrado como abolicionista e defensor dos direitos dos negros. Sobreviveu ao massacre, mas, em 26 de novembro de 1844, foi ferido, capturado e morto na Batalha de Arroio Grande, último combate farroupilha em solo gaúcho. Seu corpo foi sepultado em Arroio Grande, ao lado de outros oficiais farrapos.

Resgate histórico

A participação dos negros foi expressiva na Revolução Farroupilha, embora por muito tempo invisibilizada na narrativa histórica, segundo o professor do IFSul, campus CAVG, Vinícius Pereira de Oliveira, doutor em História pela UFRGS. Pesquisadores estimam que até 50% das tropas farroupilhas foram formadas por escravizados, recrutados com a promessa de liberdade ao final da guerra. O ápice dessa contradição ocorreu na Batalha de Porongos, em novembro de 1844, quando lanceiros negros foram massacrados em um ataque noturno. Desarmados na véspera, entre 80 e 100 soldados foram mortos, fato que, anos depois, ganhou nova interpretação com a descoberta da chamada Carta de Porongos.

“O documento sugere um possível acordo entre o barão de Caxias (depois Duque de Caxias) e Davi Canabarro, determinando que os negros não fossem poupados, já que o Império não aceitava a libertação dos escravizados que haviam lutado. Essa versão levanta a hipótese de uma traição, reforçando a ideia de que o massacre atendeu ao interesse imperial de eliminar a promessa de liberdade e evitar uma possível revolta. Outras vertentes apontam a carta como uma forma de denegrir a imagem do Duque de Caxias.”

Para o professor, a memória de Porongos ganha força em pesquisas acadêmicas, no trabalho de patrimonialização do Iphan e em produções culturais, sobretudo de artistas negros, que resgatam essa história como denúncia da exclusão e da violência contra a população afrodescendente. Ainda segundo Vinícius Oliveira, há registros de soldados negros também lutando pelo lado imperial, o que evidencia a complexidade das alianças no período.

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