Em uma noite vazia, ela se apega à imagem que vê no espelho, não se reconhecendo.
Lembra de suas histórias, dos velhos amigos, das antigas memórias.
Cartas empoeiradas dentro da gaveta guardam o tempo no envelope meio rasgado.
Ela pega o telefone e digita um número que ainda se lembra, de alguém que marcou sua vida.
Em seu peito, sente falta de uma despedida; puxa na memória, mas não se lembra da pessoa, do nome, do cheiro ou da aparência.
Um ex-amor? Amigo? Senhor?
O telefone chama alguém que ela não sabe se vem. Uma, duas vezes; na terceira, uma voz rouca responde.
Chama pelo seu nome, como alguém que carrega uma intimidade: “Eu falei que sentiria saudade.”
Sua alma guarda alguma história, pois, ao ouvir aquela voz específica, percebe cair lágrimas de seus olhos.
Talvez, em sua pele, que um dia sentiu a juventude, ela guarde alguma memória do toque ou do amor esquecido.
Ainda com o telefone no ouvido, desmancha-se em lágrimas. Abre uma gaveta e pega uma caderneta pequena e, ao virar as páginas, encontra poesias descrevendo cada fase e cada tempo.
Recorda, então, daquele amor que um dia aconteceu no seu coração.
Em uma biblioteca da vida, as duas almas, encontrando-se novamente, se beijam na sacada da memória, revelando-se para o mundo.
Sua boca sussurra: “Eu me lembro.”
Não se pode apagar da alma, algo que é incurável.