Viajei para Austin, no Texas, para participar do SXSW. Muita gente conhece o festival pelas palestras sobre tecnologia e inovação. Eu também fui por causa delas. Queria entender o que estava mudando no trabalho, nos negócios, na humanidade e na inteligência artificial.
Acontece que um dos momentos mais marcantes da viagem aconteceu… longe dos auditórios.
Era fim de tarde. Eu estava na fila de um supermercado comprando uma salada para o jantar quando ouvi algumas pessoas falando português. Começamos uma conversa despretensiosa. Descobri que também estavam no festival. No dia seguinte, estávamos juntos visitando a sede da Dell. Depois vieram outras apresentações, novos encontros e pessoas que provavelmente eu nunca conheceria se tivesse seguido o roteiro que eu mesmo havia planejado.
Curiosamente, um dos temas mais presentes nas palestras era justamente a relação entre tecnologia e conexões humanas. Esperava ouvir muito sobre inteligência artificial, mas, pasmem, ouvi muito mais sobre gente.
Hoje resolvemos quase tudo da maneira mais fácil, não é mesmo? Mandamos uma mensagem em vez de fazer uma ligação. Respondemos um e-mail enquanto caminhamos. Pedimos para a inteligência artificial organizar um texto, resumir uma reunião ou estruturar uma ideia. Quase tudo acontece com menos esforço do que acontecia poucos anos atrás e isso não é um problema por si só, eu mesmo uso essas ferramentas todos os dias e dificilmente conseguiríamos voltar atrás.
A questão que quero refletir com você é o quanto essas facilidades produzem relações. Não produzem. Confiança continua levando tempo. Boas conversas continuam acontecendo quando existe espaço para ouvir. Novas ideias ainda surgem do encontro entre repertórios diferentes. As oportunidades mais interessantes continuam aparecendo em momentos que ninguém conseguiria colocar na agenda.
Penso que esse seja um dos grandes desafios que temos pela frente. Estamos aprendendo a automatizar processos numa velocidade impressionante. Ao mesmo tempo, ainda estamos descobrindo como preservar aquilo que faz uma equipe funcionar de verdade. É possível reduzir o tempo de uma reunião, mas não existe tecnologia que reduza o tempo necessário para construir confiança. É possível automatizar um atendimento, mas não existe atalho para fazer alguém sentir que realmente importa. E também são nas distrações da rotina (como na fila do super) que o mágica da vida acontece.
Talvez seja por isso que tantas empresas estejam investindo em tecnologia e, mesmo assim, convivam com equipes cansadas e relações cada vez mais superficiais. Nada é mais poderoso do que a presença humana.
Viajei milhares de quilômetros para conhecer o futuro e descobri que uma parte dele depende de algo que nunca foi novidade: olhar para o lado. Puxar conversa. Ser, inesgotávelmente, humano.