Quantas vezes você pegou o celular sem nenhuma pretensão específica ou até para abrir o aplicativo do banco e pagar uma conta e, quando percebeu, passou vários minutos rolando os feeds das redes sociais? Essa dispersão comum é responsável pelas horas de tela acumuladas ao fim do dia, acompanhadas da sensação de cansaço mental e, muitas vezes, de atividades que deixaram de ser feitas ou de compromissos não cumpridos.
As redes sociais, com excesso de informações rápidas, vídeos curtos e novidades a todo instante, causam uma hiperestimulação no cérebro. Esse estado é caracterizado pela busca constante por novidades, criando um impulso inconsciente de consumir o próximo conteúdo, verificar novas publicações ou descobrir qual será o vídeo de 30 segundos que aparecerá quando o dedo rolar a tela para cima.
A captura da atenção dos usuários é o ativo mais valioso da era da tecnologia. Imersas nas telas dos celulares, as pessoas são expostas a uma avalanche de publicidade e induzidas ao consumo excessivo por meio de influenciadores digitais. Portanto, o uso das redes sociais não é gratuito: ele é pago com a atenção dos usuários. A compreensão desse mecanismo é importante para que as pessoas façam um uso consciente das redes sociais e da tecnologia em geral, prevenindo prejuízos à saúde mental.
Sinais do uso excessivo de telas
O psiquiatra e professor da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Pablo Fernandez, salienta que as pessoas precisam estar conscientes de que o tempo despendido diante das telas deixa de ser investido em outras atividades, como a realização de tarefas da rotina diária, a dedicação à convivência com familiares e amigos ou o desenvolvimento de hábitos saudáveis que contribuam para o alcance de objetivos pessoais e profissionais.
O uso nocivo das redes sociais e das telas pode se manifestar de diferentes formas no comportamento. Entre os principais sinais estão:
- Dificuldade de desconexão;
- Ansiedade;
- Problemas para dormir;
- Oscilação de humor;
- Cansaço mental;
- Dificuldade de concentração;
- Desequilíbrio emocional.

As horas gastas em frente ao celular impactam diretamente a saúde mental, a qualidade do sono, o humor e a capacidade de concentração (Foto: Divulgação)
O psiquiatra destaca que, geralmente, as pessoas não têm consciência do quanto o hábito de estar no celular impacta a vida e a saúde. Muitas vezes, os pacientes reclamam de sintomas de ansiedade, insônia ou falta de foco sem se atentarem para a origem do problema.
Fadiga cognitiva
A atenção fragmentada entre vídeos, fotos, stories e comentários, o excesso de informações nos feeds e o estado constante de alerta às notificações causam a chamada fadiga cognitiva. Esse cansaço é potencializado pela falta de tempo de ócio para pensar e ter novas ideias. Os poucos minutos de espera em uma fila de supermercado ou aguardando o semáforo abrir tornam-se oportunidades para checar as redes sociais.
Além de prejudicar a capacidade de manter o foco por mais de alguns minutos em uma tarefa, esse estímulo em pequenas doses, repetido centenas de vezes por dia, é um terreno fértil para a ansiedade causada pelo medo de perder alguma novidade na internet.
“A gente está falando de um uso que permeia o dia a dia da pessoa de uma forma muito invasiva. O uso de telas de forma indiscriminada pode trazer uma maior ansiedade, inclusive uma ansiedade por estar perdendo alguma coisa que pode estar acontecendo ali”, diz.
A qualidade do tempo de tela
Sem demonizar o uso das tecnologias e das redes sociais, inclusive porque muitas pessoas trabalham com essas ferramentas, o psiquiatra enfatiza que é necessário distinguir os diferentes tipos de consumo realizados durante o tempo de tela. O impacto de duas horas assistindo a vídeos com conteúdo educacional ou em uma videochamada com um amigo que mora longe é diferente do impacto de duas horas rolando dezenas de vídeos rápidos nas redes sociais.

Momentos de espera são preenchidos pela rolagem em feeds (Foto: Divulgação)
“Do ponto de vista qualitativo, esse uso é muito diferente. E o reflexo na saúde mental, nesse aspecto, também é diferente. O número de horas não é tão importante, mas a maneira como esse uso se desenvolve é muito relevante para a forma como o indivíduo se relaciona com as redes sociais e com a exposição aos conteúdos que aparecem.”
Por isso, o psiquiatra destaca que “não há um número mágico de horas” de uso de tela considerado saudável. O mais importante é estar atento ao tipo de conteúdo consumido e às formas como esse hábito modifica a vida da pessoa.
“Até porque a gente precisa compreender que, uma vez que as telas estão nos rodeando, precisamos colocar um limite em relação ao quanto isso influencia na maneira como a nossa rotina acontece”, diz.
A higiene digital
De acordo com o psiquiatra, muitas vezes é difícil para as pessoas se autoavaliarem quando se trata de dependências prejudiciais à saúde ou à vida pessoal e profissional, ainda mais quando se trata de um hábito disseminado no círculo social ou no ambiente em que vivem.
No entanto, ele prescreve algumas práticas de higiene digital que podem ser adotadas como limites para o uso das telas e transformadas em novos hábitos de uso do celular:
- Não pegar o celular logo ao acordar nem ao deitar para dormir;
- Praticar atividades longe das telas, como leitura e exercícios físicos;
- Reduzir as notificações do celular, especialmente as das redes sociais;
- Manter o celular no modo silencioso;
- Priorizar conexões sociais e conversas presenciais;
- Estar atento ao tempo diário de uso das telas;
- Utilizar aplicativos que limitam o tempo de uso das redes sociais.
O psiquiatra ressalta a importância de essas práticas serem adotadas gradualmente e com persistência, apesar de eventuais falhas, para que esses limites passem a fazer parte da rotina.
“Eu entendo que mudanças de hábitos geralmente levam tempo. Então, são coisas que precisam ir ganhando espaço na vida das pessoas aos poucos.”
