Nascida no Senegal, onde pessoas LGBTQIA+ ainda enfrentam criminalização, a doutoranda da UFPel e multiartista Abibatou Manicongo, a Biba, encontrou em Pelotas o espaço para viver sua identidade de forma plena. No Dia Mundial do Orgulho LGBTQIA+, ela fala sobre exílio, acolhimento, políticas públicas e resistência.
Você precisou deixar o país para ser quem és. Como foi essa caminhada?
Eu gosto de dizer que sou um fruto da resistência. Quando falamos de orgulho, falamos também de ter resistido e de ser quem sou hoje. Venho do Senegal, um país onde ainda sou criminalizada e onde não existem perspectivas de vida para a minha comunidade. O exílio foi uma decisão necessária. Morei seis anos na França e foi lá que comecei a entender a importância de estar em um lugar onde eu pudesse ser 100% eu mesma. Em 2023 cheguei a Pelotas para cursar o doutorado na UFPel e, pela primeira vez, tive acesso às instituições que me ajudaram a realizar minha transição de gênero. Hoje estou em acompanhamento hormonal há dois anos e sendo a pessoa que sempre soube que era.
Como foi a recepção em Pelotas?
Recebi muito acolhimento. Primeiro da comunidade LGBT e depois da comunidade negra pelotense, através de pessoas e instituições que se tornaram minha família. Elas me ajudaram desde coisas simples, como encontrar roupas para o frio, até me fortalecer emocionalmente. Ganhei muito mais do que respeito. Encontrei pessoas que me enxergaram, me incentivaram e me fizeram acreditar em mim mesma. Eu costumo dizer que sou senegalesa, mas sou uma travesti pelotense. Construí minha identidade no Sul, em Pelotas, cercada de pessoas que me acompanharam nesse processo. Vou levar isso para a vida.
O Brasil avançou nas políticas públicas para a população LGBTQIA+?
Vejo avanços importantes. Hoje existem mecanismos como a retificação de nome, o casamento civil, o uso do nome social e serviços de saúde especializados. Para quem vem de uma realidade onde nada disso existe, esses avanços são muito significativos. Mas ainda há uma grande distância entre as leis e a prática. Muitas pessoas trans continuam enfrentando discriminação em serviços públicos, na saúde e no mercado de trabalho. Falta capacitação dos servidores, mais fiscalização e também a presença de pessoas trans nesses espaços de decisão.
Você sonha em um dia levar essa experiência de volta ao Senegal?
É um sonho, mas também sou realista. Neste ano, meu país aprovou medidas ainda mais duras contra pessoas LGBTQIA+. Estamos vivendo um momento de retrocesso. O que posso fazer é tornar minha existência visível. Mostrar para outras pessoas que é possível ser quem são e que existem lugares no mundo que podem acolhê-las. Isso faz parte do meu propósito.
Por que o sobrenome Manicongo é tão importante para ti?
É uma homenagem à Chica Manicongo, considerada uma das primeiras travestis negras registradas no Brasil. Para mim, ela representa resistência. Mesmo em um contexto extremamente hostil, escolheu viver sua identidade.