A veia política na família Marasco Leite sempre foi muito forte. O professor de Direito e advogado José Luís Marasco Cavaleiro Leite já foi diretor do Curso da UFPel, já foi candidato a prefeito de Pelotas e esteve como secretário, mas hoje, à vice-presidência da Bibliotheca Pública Pelotense, é visto pela sociedade como o pai do governador Eduardo Leite. Fato que não lhe traz nenhum desconforto, embora assuma que suas manifestações se tornaram mais restritas, pela dimensão que pode tomar. Em quase uma hora de entrevista ao Programa Debate Regional da Rádio Pelotense, o advogado falou da relação paternal com o filho, avaliou a gestão no governo estadual concedendo uma nota 7,5 e apontou situações marcantes ao longo da jornada política, com possibilidade de pausa e mudança para São Paulo.
Para Marasco, a condição de “pai do governador” trouxe uma postura mais cuidadosa diante de manifestações públicas. Opiniões que antes eram interpretadas apenas como posicionamentos pessoais passaram a ser associadas ao governador. “Qualquer manifestação minha estava marcada por essa relação paternal e afetiva”, observa.
Apesar da projeção política do filho, Marasco afirma que, dentro de casa, pouco mudou. O respeito e a proximidade construídos ao longo da vida permaneceram os mesmos. As conversas seguem acontecendo de pai para filho, embora ele reconheça que hoje participa menos das decisões do que nos primeiros anos da trajetória política de Eduardo. “Nas grandes decisões, ele costuma me ligar”, revela. Uma delas foi sobre a entrevista a Pedro Bial, onde Eduardo Leite decidiu tornar público a sua orientação sexual. “Esta foi talvez a mais marcante, que envolveu toda a família. Ele falou comigo, com a mãe e com os irmãos”.
Gestão
Nas questões administrativas, Marasco admite que o círculo de convivência do filho foi sendo ampliado, com uma rede de assessores e especialistas, o que naturalmente reduziu a influência direta da família nas questões de governo. Entre as características que mais admira no filho, Marasco destaca a coragem e a dedicação ao estudo. Em um episódio ocorrido nos primeiros meses do governo estadual, Marasco havia combinado um almoço com o filho após uma entrevista coletiva no Palácio Piratini. “Eram dezenas de jornalistas o questionando sobre a reforma administrativa, e ele respondeu a todos. Ao me reconhecer, uma repórter se aproximou e comentou da capacidade de Eduardo de responder detalhadamente.” Para o pai, a cena confirmou uma característica que observa desde cedo: o domínio profundo dos temas que assume. “Ele tem o hábito de estudar muito os assuntos com os quais trabalha”, afirma.
Vocação
Embora nunca tenha incentivado explicitamente o ingresso do filho na política, Marasco conta que os sinais de vocação surgiram ainda na infância. Uma das lembranças mais curiosas envolve sua própria campanha para prefeito de Pelotas, em 1988. Anos depois, ainda criança, Eduardo assistiu às gravações da campanha em fitas VHS e passou a criticar as estratégias utilizadas. “Pai, estava tudo errado”, recorda, entre risos. A inclinação para a política o levou à filiação ao PSDB aos 16 anos. Leite disputou sua primeira eleição para vereador ainda muito jovem. Na segunda tentativa, conquistou uma cadeira na Câmara Municipal e iniciou uma caminhada que o levaria à Prefeitura de Pelotas e, posteriormente, ao Palácio Piratini.
Intervenções
Marasco conta que discutiu diversas vezes com o filho temas ligados à gestão das escolas públicas. Em algumas situações, acredita ter contribuído para mudanças de posição do governador. Em outras, foi ele quem acabou convencido. Um exemplo foi a adoção de novos modelos de gestão e terceirização de serviços administrativos nas escolas estaduais. Inicialmente contrário à ideia, diz ter mudado de opinião ao compreender as dificuldades enfrentadas pela administração pública para resolver problemas cotidianos das instituições de ensino. “Algumas vezes eu o convenci. Em outras, fui convencido por ele”, resume.
Orgulho sem idolatria
Embora seja um defensor da gestão de Eduardo Leite, Marasco evita avaliações absolutas. Ao ser questionado sobre a nota que atribui aos quase oito anos de governo, responde com objetividade: 7,5. A avaliação positiva não impede a análise crítica. O professor reconhece que ainda existem desafios em áreas como educação, segurança pública e infraestrutura, mas acredita que o Estado avançou em diversos indicadores desde 2019.
Sobre uma eventual candidatura presidencial do filho, admite que nunca desejou vê-lo concorrendo ao cargo neste momento. Ainda assim, considera que ele possui qualidades para assumir a função futuramente. “Seria um bom presidente”, afirma. Ao fazer um balanço, Marasco prefere definir sua trajetória familiar por outra palavra: sorte. Pai de três filhos, todos servidores públicos aprovados em concursos ou eleitos democraticamente, afirma que sempre acreditou no potencial de cada um deles. Mais do que cargos ou projeção pública, diz ter valorizado o caráter e a formação pessoal. “Eu sempre achei que, onde estivessem, eles se dariam bem”, afirma.
Aos 80 anos, acompanhando a reta final do segundo mandato do filho no governo do Estado, o professor, que durante décadas foi conhecido por formar gerações de estudantes, reconhece que a história lhe reservou um papel diferente daquele que imaginava. Sobre a carreira política, o pai do governador revela que Leite irá dar uma pausa em cargos públicos, com possibilidade de mudança para o Estado de São Paulo, onde poderá atuar na iniciativa privada.
