“Um dia serei grande na história dos homens”. Essa frase simboliza bem o propósito de vida de Antonio Caringi. No dia 18, o escultor pelotense completaria 121 anos. Neste sábado, dia 30, serão 45 anos de sua morte. Quase meio século depois de partir, o artista segue presente na paisagem urbana, na memória cultural e na identidade do Rio Grande do Sul.
Autor de algumas das obras mais emblemáticas do Estado, como os monumentos O Sentinela da Pátria, Colono, As Mães e Coronel Pedro Osório, além do O Laçador, em Porto Alegre, e Monumento Nacional ao Imigrante em Caxias do Sul, Caringi deixou marcas em praças, avenidas e espaços públicos de dezenas de cidades brasileiras.
Para a neta mais velha do escultor, Antonella Caringi Aquino, o maior legado do avô é justamente ter transformado cidades em verdadeiros museus a céu aberto. Antonella é formada em ballet clássico e graduanda em Dança Licenciatura pela UFPel. Autora da Trajetória Artística em Dança de Antonia Caringi em Pelotas e do primeiro Docudança do curso, dedica-se à curadoria de acervos e porta voz do legado de seu avô.
“Ele foi um criador de símbolos. Obras que acabaram se tornando referências do povo gaúcho, da força do trabalho e da identidade regional”, afirma. Além dos símbolos já citados, Caringi também é autor do monumento a Bento Gonçalves, em Porto Alegre, além de esculturas e bustos espalhados por pelo menos 25 cidades gaúchas.
Um artista em movimento
Antonella define o avô como “um artista em movimento”. Segundo ela, mesmo décadas após sua morte, as obras seguem dialogando com o presente, especialmente em momentos históricos e comemorativos. “As obras dele se conectam com datas importantes, como os 150 anos da imigração italiana e os 200 anos da Revolução Farroupilha. O trabalho dele continua vivo”, destaca.

Neta Antonella Caringi Aquino quer aproximar o nome do avô à obra (Foto: Jô Folha)
Nos últimos anos, Antonella assumiu a missão de aproximar o nome de Antonio Caringi de sua própria obra. Depois de viver duas décadas fora do Brasil, ela retornou a Pelotas e iniciou um trabalho de pesquisa, organização de acervo, exposições, documentação e preservação do legado do escultor. A inquietação surgiu ao perceber que muitas reproduções comerciais de obras famosas do avô circulavam sem qualquer referência ao artista.
“Eu comecei a estudar direitos autorais porque via camisetas, chaveiros e imagens das esculturas sem o nome dele. Meu propósito passou a ser vincular o nome do artista à obra”, explica.
Preservação e tecnologia
Uma das frentes do trabalho da família é o escaneamento digital das esculturas para preservação histórica. Até agora, 14 obras já passaram pelo processo de digitalização em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O projeto busca garantir a salvaguarda do patrimônio artístico diante da ação do tempo, furtos e deteriorações. Algumas esculturas públicas já tiveram placas e partes removidas ao longo dos anos. “A ideia é preservar esse patrimônio para as futuras gerações. É um trabalho que envolve universidades, poder público e sociedade”, diz Antonella.

(Foto: Jô Folha)
Ela também destaca a importância da educação patrimonial e cultural para aproximar a população da história do escultor pelotense. “A população reconhece quem foi Antonio Caringi? Conhece a história das obras? Esse pertencimento cultural precisa ser fortalecido”, questiona. A crítica construtiva vale não só para a preservação dos monumentos, e são muitos na praça Coronel Pedro Osório, mas também para a identificação do artista em cada uma delas.
Portal
O portal dedicado a Antonio Caringi foi lançado para celebrar os 121 anos de nascimento do escultor pelotense e reúne, em um ambiente digital interativo, um amplo acervo sobre sua trajetória e suas obras. A plataforma apresenta documentos, fotografias raras, registros históricos e conteúdos inéditos cedidos pela família do artista, além de uma experiência em 3D da obra O Laçador, símbolo oficial do Rio Grande do Sul. Desenvolvido pela Holding in.Pacto, com supervisão da neta, o site busca preservar e divulgar o legado cultural de Caringi de forma acessível e contemporânea, conectando tecnologia, memória e patrimônio artístico gaúcho.
Da infância humilde à Europa
Filho de imigrantes italianos, Antonio Caringi nasceu em Pelotas em 1905. O pai desejava que ele seguisse no comércio da família, mas o talento artístico falou mais alto desde cedo. Ainda jovem, chamou atenção em uma exposição realizada em Porto Alegre e acabou recebendo incentivo político para estudar na Europa. Embora desejasse ir para a Itália, foi contemplado com uma bolsa para a Alemanha, onde estudou na Academia de Belas Artes de Munique.
O período coincidiu com anos turbulentos na Europa. Caringi viveu dificuldades, enfrentou a barreira da língua e chegou a fugir da guerra. Mesmo assim, destacou-se pelo talento e pela dedicação ao trabalho. Perfeccionista e obstinado, construiu uma carreira marcada por monumentos grandiosos, produzidos em uma época em que o Rio Grande do Sul sequer possuía fundições para esculturas em bronze. “Era um trabalho extremamente árduo. Ele sofreu muito fisicamente para produzir aquelas obras gigantescas”, lembra a neta.
O homem por trás do artista
Antonella guarda lembranças afetivas do convívio com o avô até os dez anos de idade. Recorda o cheiro do charuto, os corredores cheios de esculturas na casa da família e o fascínio infantil pelo ateliê. Ela também destaca o lado humano do artista, descrito como brincalhão, simples e generoso. “Ele era extremamente dedicado, mas também muito humano. Dava oportunidades às pessoas e tinha sensibilidade para enxergar o outro”, conta.
Estudos e curiosidades
A professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pelotas, Isabel Halfen Torino afirma que Antonio Caringi segue vivo na paisagem urbana de Pelotas, mas destaca que a preservação e valorização dessas obras dependem da ampliação de estudos, pesquisas e contextualizações históricas sobre os monumentos. Segundo ela, ainda há muito a ser explorado sobre a trajetória do artista. Isabel relata que, ao iniciar sua tese, encontrou escassez de informações sobre Caringi, apesar da relevância de sua produção escultórica. Após cinco anos de investigação, conseguiu identificar cerca de uma centena de obras adicionais do escultor, além de reunir vasta documentação sobre sua formação artística na Alemanha e no Brasil.
A pesquisadora também esclarece aspectos históricos envolvendo algumas das principais obras de Caringi. Sobre O Laçador, afirma que Paixão Côrtes não serviu de modelo para a escultura, mas colaborou posteriormente com detalhes da indumentária gaúcha, interpretação que acabou incorporada ao imaginário popular. Em relação ao monumento Ao Colono, Isabel cita relatos que negam que o então subprefeito Almiro Buss tenha sido o modelo da obra, embora a história tenha se difundido ao longo das décadas em Pelotas. Já sobre o Sentinela Farroupilha, destaca que Caringi buscou representar o “gaúcho pobre” e o soldado farroupilha inspirado na figura do índio charrua, sendo este o primeiro monumento público do escultor instalado em Pelotas.
