Grêmio Atlético Farroupilha completa cem anos

Centenário fora do Fragata

Grêmio Atlético Farroupilha completa cem anos

Com obra do estádio parada, Fantasma faz amistoso contra time uruguaio para celebrar data, de olho na Copinha

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Atualizado domingo,
26 de Abril de 2026 às 09:25

Grêmio Atlético Farroupilha completa cem anos
Jovem elenco se prepara para a Copa FGF, que inicia em maio (Foto: Vinicius Teixeira - @vtfotografias__)

Fundado em 26 de abril de 1926, o Grêmio Atlético Farroupilha completa cem anos neste domingo (26). O campeão gaúcho de 35 chega ao centenário sem o demolido Nicolau Fico e com a obra do novo estádio paralisada. O clube tenta resistir e, após uma temporada sem disputar competições profissionais, projeta a participação na Copa FGF, a partir de maio.

Com sua tradicional casa no Fragata derrubada para dar lugar a uma unidade da rede de atacarejo Stok Center, na avenida Duque de Caxias, o Fantasma enfrenta agora um bloqueio judicial que impede o avanço da construção da chamada arena Ninho do Cardeal, na avenida 25 de Julho, Zona Norte de Pelotas.

No retorno ao cenário competitivo após duas temporadas, o vice-presidente de futebol, Alcy Moraes, dirigente de longa data do Tricolor, comanda a formação do grupo e da comissão técnica. A presidente é Adriana Costa, enquanto Geraldo Saraiva ocupa o cargo de vice administrativo e o ex-presidente Fábio Costa é, oficialmente, o tesoureiro.

O treinador Bruno Coelho, ex-base do Brasil, é o responsável por dirigir o time na Copa FGF, quando haverá a reedição do clássico Bra-Far após 13 anos. Ele observa a equipe neste domingo, em um amistoso contra o Deportivo La Coronilla, de uma localidade próxima ao Chuí.

O jogo festivo começa às 15h no estádio do Bancário, atual CT do Progresso (av. Brasil, 588-658). Ingressos custam R$ 5 mais a doação de um quilo de alimento.

Área da chamada arena Ninho do Cardeal fica na avenida 25 de Julho; imagem acima é do fim de novembro (Foto: Jô Folha)

Os dourados anos 1930

Em uma temporada na qual também deve disputar a Terceirona Gaúcha, a partir de setembro, o Farroupilha se esforça para manter vivo o legado de um esquadrão histórico. O título estadual conquistado em 1935 deu ao Tricolor a famosa alcunha de “campeão por cem anos”, em referência ao centenário da Revolução Farroupilha.

À época, o Fantasma era chamado de Grêmio Atlético 9º Regimento. Foi sob essa nomenclatura que alcançou suas grandes glórias. Como recorda o pesquisador Junior do Vale, o clube foi vice-campeão gaúcho em 1934, tendo perdido para o Internacional, um ano antes de superar o Grêmio em uma decisão com três partidas.

“A década de 1930 é, disparada, a melhor da história do Farroupilha”, afirma Junior. Em outros esportes, o período também registrou sucessos: a conquista do Estadual de Esgrima em 35 e a vitória no Citadino de Basquete em 36, por exemplo. Anos depois, em 1941, o nome mudou por determinação do governo de Getúlio Vargas que proibia clubes de usarem nomes de entidades militares. Surgiu, então, o Grêmio Atlético Farroupilha.

O principal jogador da época era Sezefredo Ernesto da Costa, o Cardeal. Nascido em Santa Vitória do Palmar, brilhou no título estadual antes de se transferir para Nacional do Uruguai e Fluminense. Em 1937, defendeu a Seleção Brasileira no Sul-Americano. Cardeal morreu aos 36 anos, vítima de tuberculose.

A última grande campanha tricolor na primeira divisão foi em 1959, com mais um vice. Entre 1919 e 39, os clubes da região Sul-Fronteira predominavam; de 40 a 60, todas as taças foram para Porto Alegre, mas ainda havia, de acordo com o pesquisador, capacidade de enfrentamento por parte dos representantes da Metade Sul – o que acabou na sequência, com o fim da regionalização do torneio.

As décadas de 70, 80 e 90 tiveram o Farroupilha presente no cenário estadual, apesar da ausência de títulos. O Fantasma participou da elite do Gauchão pela última vez em 2006, ano em que chegou a vencer o Grêmio, no Olímpico. A mais recente ascensão esportiva do clube se deu em 2018, ao subir da terceira para a segunda divisão, eliminando o Guarany, em Bagé. Em 2019, no entanto, acabou rebaixado.

O Tricolor ergueu sua última taça em 2022, ao bater Riograndense, Rio Grande e Elite, de Santo Ângelo, na amistosa Copa Francisco Novelletto.

Estádio há quase um ano sem avanço

Anunciada em dezembro de 2022 com previsão de conclusão em até um ano e meio, a obra do novo estádio do Farrapo está parada desde maio de 2025, seis meses após começar. A paralisação é uma decisão da Justiça do Trabalho, em função de ações movidas por ex-jogadores do clube. O terreno fica às margens da BR-116 e tem quatro hectares.

O projeto inicial apresentado à imprensa previa iluminação em led, centro administrativo com três andares, estacionamento, bares e campo suplementar. De acordo com o vice-presidente Alcy Moraes, o custo da construção já foi quitado. Há fundações e estacas colocadas e, ainda segundo o dirigente, gramado, iluminação e sistema de irrigação também estão pagos. A instalação de estruturas pré-moldadas seria o próximo passo – a empresa contratada para isso foi a Signor, da cidade de Tapera.

A negociação para a troca de estádio envolveu uma permuta. Conforme documento ao qual a reportagem teve acesso, o valor integral da operação foi de R$ 10 milhões, sendo R$ 4 milhões do terreno na 25 de Julho e R$ 6 milhões em dinheiro. Entretanto, como noticiou o A Hora do Sul em março, a Justiça do Trabalho identificou indícios de fraude na venda do Nicolau Fico.

O processo aponta uma possível tentativa de esconder patrimônio para evitar o pagamento de dívidas. Parte dos valores da negociação, inclusive, não teria passado pelas contas oficiais do clube. Outro ponto levantado é que despesas da construção da arena Ninho do Cardeal estariam sendo pagas por terceiros, como a Navarini Engenharia, compradora do Nicolau Fico, e pela Associação Esportiva do Sul, sem passar pelas contas do Farroupilha.

A Associação Esportiva do Sul tem como sócios os próprios administradores do clube, Adriana Costa e Fábio Costa. Para a acusação, esse modelo indicaria um esvaziamento financeiro do clube, que seguiria sem recursos em seu nome enquanto os bens e valores ficariam vinculados a terceiros. O Farroupilha também não conta com receita de produtos oficiais nem com quadro ativo de sócios.

Em nota, a direção negou “qualquer fraude ou ocultação de valores por parte do clube”. O texto ressalta que não houve descumprimento total do acordo, mas sim um atraso pontual por falta momentânea de recursos. “A maior parte dos valores já foi recebida pelo atleta [Nota: Igor Padilha, que reclama judicialmente], justamente porque o clube não tem acesso imediato a quantias que estão bloqueadas”, diz um trecho do comunicado.

“O Farroupilha saiu de 16 mil metros quadrados para 40 mil metros quadrados. Tivemos alguns entraves trabalhistas que a Justiça e o Jurídico do clube trabalham bastante para que o clube obtenha êxito. As contas estão todas em dia. Existem algumas reclamatórias, sim, mas o clube vai procurar sanar”, diz Fábio Costa.

A reportagem questionou a direção do clube sobre o local onde estão os troféus e itens históricos do Fantasma, anteriormente armazenados em espaço no Nicolau Fico. Segundo Fábio Costa, foi providenciado o aluguel de uma casa para evitar a perda e garantir a proteção do acervo. Vendido, o estádio foi demolido em 2025, mesmo ano em que houve a inauguração da unidade do Stok Center na Duque de Caxias.

Símbolo de persistência

Paralelamente às questões administrativas e burocráticas, o Tricolor mantém torcedores fiéis, mesmo depois da saída do bairro do qual era um dos símbolos. Fernando Alberto dos Santos deixou Pelotas há 20 anos e mora em Porto Alegre. Para ele, “falar sobre o Farroupilha é falar de memória e pertencimento”.

“Acompanhar o clube de longe é um exercício curioso. Tu não vive mais o dia a dia da cidade, não passa no Café Aquários para comentar do jogo, não acompanha a rádio local com a mesma frequência, mas cada notícia, cada resultado, bate diferente, como se fosse uma coisa tua que ficou lá”, relata.

Fernando considera a pandemia um marco relevante, de forma negativa, para o futebol do interior. No caso do Farroupilha, o período sem disputar jogos oficiais passou dos mil dias entre 2019 e 2022. “Nos últimos anos, o torcedor foi muito testado não por eventos em campo, mas coisas fora dele”.

Sob a ótica do torcedor, o Fantasma é um símbolo de persistência. “Tu torce pro Farroupilha porque tu é parte da história dele”. Sobre a mudança de endereço, Fernando vê dois lados. “O estádio não era só um estádio, era uma memória viva da cidade, da história do clube. Ver ele ter que sair dali por falta de condição estrutural acaba mostrando muito da realidade do interior. Mas ao mesmo tempo, a construção da nova arena, se a Justiça ajudar, traz esperança de um recomeço”.

Pré-temporada

De longe, Fernando acompanhará o amistoso comemorativo deste domingo. É o terceiro teste da preparação para a Copa FGF. Formado por jovens, o grupo do Farroupilha venceu a seleção de Cerrito e o sub-17 do Progresso.

O plantel conta com nomes como o lateral Matheus Rosa, com passagem pelo Brasil em 2025; o meio-campista Agustin Milar, filho de Claudio Milar e ex-base do Xavante; o meia-atacante Wendell Pelé, de volta ao Farrapo; e os atacantes Christiel, ex-base do Pelotas; e Negrinho, que no ano passado atuou no São Paulo de Rio Grande, por exemplo.

Na primeira fase da Copinha, o Fantasma mandará suas partidas no estádio Aldo Dapuzzo, em Rio Grande. Os treinos vêm sendo realizados no complexo do Sesi e no chamado estádio do Quartel. Além do clássico contra o Brasil, o Tricolor terá pela frente jogos diante de Bagé e Guarany.

Com a terceira divisão estadual marcada para ir de setembro a novembro, o Farrapo tentará o retorno à Série A-2, que não disputa desde 2019. Em 2022, 2023 e 2024, caiu na fase de grupos da Terceirona. Na última dessas participações, há dois anos, perdeu oito pontos no tribunal por escalação irregular de atletas e por isso não lutou pelo acesso.

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