A cultura e a espiritualidade do povo indígena Fulni-ô ganham espaço em Pelotas a partir desta terça-feira (21), com a abertura da exposição fotográfica Povo indígena Fulni-ô às 17h, na 4 Galeria, localizada na rua Doutor Amarante, 608. A mostra reúne 18 imagens produzidas pela fotógrafa Kat Torres e retrata a vivência de uma família Fulni-ô durante sua passagem pela cidade no ano passado.
Originários do sertão nordestino, os Fulni-ô habitam atualmente o município de Águas Belas, em Pernambuco, formando a única aldeia dessa etnia no Brasil, com cerca de seis mil indígenas. Em Pelotas, o público terá novamente a oportunidade de contato direto com essa cultura, a partir do retorno\ da família do guerreiro Towe (o pai) à cidade, que estará acompanhado por Efeklany e Txidjo, respectivamente, mãe e filho. O trio permanecerá até 6 de junho com uma programação que inclui atendimentos com a medicina da Jurema, apresentações artísticas, oficinas, pinturas corporais com tintura de jenipapo, rodas de rapé e exposição de artesanato.
Registros da tradição
A exposição fotográfica nasce de um processo espontâneo de registro. Segundo a organizadora Shimene Teixeira, da loja Jóia de Bruxa, as imagens documentam a primeira vinda da família ao Sul, em dezembro passado, quando vieram compartilhar a medicina ancestral da Jurema, prática espiritual preservada exclusivamente pelos Fulni-ô. “Eles são os guardiões desse conhecimento. Aqui no Sul não havia nenhum trabalho com essa medicina, e a procura foi grande”, relata.
O organizador Max Igansi destaca que a experiência revelou não apenas o interesse do público, mas também a profundidade cultural do povo Fulni-ô. “Descobrimos uma tradição viva, com língua própria preservada e práticas milenares mantidas. A Jurema não é só uma árvore, ela está no centro da história e da espiritualidade deles”, explica. A planta, nativa do sertão, é utilizada em diferentes formas, chá, rapé e defumações, e ocupa papel central nos rituais.
As fotografias surgiram nesse contexto, inicialmente como material de apoio para divulgação. “O objetivo era registrar para eles terem conteúdo do próprio trabalho. Mas quando vimos o resultado, percebemos que havia uma narrativa ali”, afirma Max.
Para Kat Torres, o ensaio é resultado de uma convivência próxima. “Não foi pensado como exposição no início. Eu já tinha uma trajetória de busca por conexão com diferentes etnias, e quando eles chegaram, fui acompanhando os momentos, cerimônias, conversas, cotidiano. Depois, ao rever as imagens, entendemos que aquilo poderia aproximar outras pessoas dessa realidade”, conta.
A curadoria, assinada por Mariana Rachinhas, organiza as imagens de forma a conduzir o visitante por essa experiência, destacando elementos como rituais, expressões corporais, música e interação com o ambiente natural. A proposta é oferecer mais do que um registro visual: criar uma ponte sensorial com o universo Fulni-ô.
Outras ações
Além da exposição, a presença da família Towe amplia o alcance do projeto. Durante quase dois meses, serão realizados encontros voltados à difusão da cultura, religiosidade e medicina Fulni-ô, incluindo atividades específicas para homens e mulheres, oficinas de grafismo indígena, construção de maracás e palestras.
“A Jurema é uma das medicinas mais antigas do Brasil. Não é só história, é experiência. Atua no campo energético, na limpeza e na conexão com os ancestrais”, reforçam os organizadores.
A iniciativa também tem um caráter educativo e de conscientização. Há planos de levar a exposição para outras cidades e instituições, incluindo museus e escolas, ampliando o diálogo sobre os povos originários e suas tradições. A abertura desta terça-feira contará com a presença da família Fulni-ô, marcando o início da programação, que estará disponível nas redes sociais da @joiadebruxa.