A professora Josiane Dias coordena o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) da Escola Municipal de Ensino Fundamental Santa Terezinha, em Pelotas. Ela explica como o espaço fortalece práticas antirracistas já desenvolvidas na escola e amplia o debate sobre identidade, cultura e pertencimento entre os alunos.
Como surgiu o Neabi na escola e qual é o objetivo do núcleo?
O Núcleo, na verdade, iniciou desde o começo do ano. Em março a gente começou com as atividades. É um núcleo de estudos que funciona para fomentar e potencializar as práticas antirracistas que a escola já desenvolvia, além de trazer mais potência e outras perspectivas na questão negra, indígena e também quilombola, que é uma referência importante aqui na cidade. Então, é um trabalho que já existia, mas que ganha mais força com o núcleo.
De que forma essa potência se concretiza no dia a dia da escola?
Ela se dá na medida em que existe uma pessoa responsável pela coordenação, organizando, divulgando o que os professores já fazem e incentivando aqueles que ainda não desenvolvem atividades a se engajarem. A gente também traz propostas, oficinas e pessoas de fora para contribuir. A escola já entende que a pauta antirracista é necessária, a equipe diretiva é parceira, mas ainda é insuficiente, porque a gente luta contra algo muito forte. O racismo é estrutural e institucional, então precisa ter alguém com um olhar específico e atento para isso.
Por que é importante trabalhar essas questões desde cedo na escola?
Porque a escola é o primeiro espaço em que os estudantes se deparam com o racismo. Na família, geralmente, é um lugar de acolhimento, mas quando chegam na escola, essa diversidade nem sempre é respeitada. Existe diversidade racial, religiosa – o racismo religioso também aparece – e a escola é esse espaço educativo em que eles estão abertos à aprendizagem. A gente precisa trazer o diálogo, a reflexão e também as potências negras e indígenas. Não é só falar do processo de escravização, que já foi muito abordado, mas falar da potência desses povos. A gente quer falar de alegria, de pertencimento, para que o estudante negro se sinta orgulhoso, se autodeclare e se empodere.
Que tipo de atividades são desenvolvidas com os alunos?
A gente começou o ano trabalhando com a Mestra Griô Sirley Amaro, que é uma figura muito importante para Pelotas. Trabalhamos com músicas, com o fuxico, com a costura, tudo que ela desenvolvia. Também já tivemos na escola o José Batista, com o tambor sopapo, que é outra referência importante. Agora estamos falando sobre o Manuel Padeiro. A ideia é partir das personalidades daqui, da nossa cidade e da nossa comunidade, para depois ampliar para referências nacionais e mundiais. É importante que os alunos saibam que existem pessoas potentes aqui, que precisam ser valorizadas e fazer parte do currículo escolar.
Todos os professores participam dessas ações?
Sim. Existe uma lei que obriga que todos os professores, em todas as etapas de ensino, trabalhem essas temáticas. A Secretaria de Educação também solicita relatórios das atividades. Aqui na escola, os professores desenvolvem os trabalhos, repassam para o núcleo e a gente amplia e divulga essas ações. A ideia é que todos estejam engajados. Ontem, por exemplo, tivemos exposição de trabalhos de diferentes turmas. Algumas atividades surgem de forma independente, outras em parceria com o núcleo, e a gente vai potencializando essas ações.
Esse processo também é um aprendizado para os professores?
Com certeza. Eu mesma sou pedagoga e dialogo com professores de outras áreas, como matemática. Uma professora trouxe uma proposta usando capulanas para trabalhar sequência numérica, por exemplo. Então a gente vai aprendendo uns com os outros. Está se criando um diálogo muito bom entre os professores, todos engajados nesse processo de crescimento. Eu fico muito feliz e orgulhosa da escola. Ontem, inclusive, tivemos professores em uma formação promovida pela Secretaria de Educação e eles saíram emocionados com o aprendizado.
