Coordenadora do projeto VeriFato, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a professora Sílvia Porto Meirelles fala sobre educação midiática, desinformação e os desafios de aproximar adolescentes do jornalismo local.
O que é o projeto VeriFato e como ele funciona?
A gente tem esse projeto desde 2021 e trabalha em duas frentes. Uma é pensar como o jornalismo pode conversar com a audiência jovem, produzindo conteúdos para redes sociais. A outra é ir às escolas trabalhar educação midiática com alunos do ensino fundamental e médio. É um trabalho muito significativo porque conseguimos observar como essa geração consome informação e como identifica aquilo que está recebendo.
O que mais chama atenção no contato com os adolescentes?
Uma das preocupações é o que eles estão consumindo nas redes sociais. Eles passam muito tempo vendo conteúdos produzidos por inteligência artificial, como as chamadas “novelinhas das frutas” (vídeos curtos gerados por Inteligência Artificial onde frutas e vegetais vivem dramas intensos). Ao mesmo tempo, eles conseguem identificar com facilidade quando algo foi feito por IA. O que falta é uma leitura crítica sobre aquilo que estão consumindo.
Os jovens conhecem o que acontece em Pelotas?
Eles sabem falar muito sobre Neymar, sobre influenciadores e assuntos que circulam nacionalmente. Mas, quando perguntamos o que está acontecendo na cidade, eles sabem pouca coisa. Não têm um repertório de jornalismo local e acabam buscando informações em perfis que não passam pelo processo de checagem jornalística.
Isso preocupa pensando no futuro desses estudantes?
É muito assustador. Eles têm conhecimento sobre vários temas da internet, mas muitas vezes não conseguem relacionar esse conteúdo com acontecimentos importantes para a sociedade. Isso dificulta o desenvolvimento de argumentos e a compreensão de temas relevantes.
Qual seria o caminho para enfrentar esse problema?
Eu acho que o remédio é conversar com eles. Não adianta ignorar o que eles estão vendo. É preciso discutir esses conteúdos, explicar por que aparecem tanto e estimular uma leitura crítica. Os pais, professores e outros adultos têm um papel fundamental nesse processo.
Qual é o principal objetivo do VeriFato?
A gente quer contribuir para um acesso mais qualificado à informação. Tem muita coisa acontecendo e todo mundo falando ao mesmo tempo. Queremos ajudar as pessoas a saber onde buscar informações confiáveis e que perguntas fazer para avaliar se podem acreditar ou não em determinado conteúdo.