“A atividade física melhora a saúde mesmo quando a balança não muda”

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“A atividade física melhora a saúde mesmo quando a balança não muda”

Pedro Hallal - Epidemiologista

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Atualizado terça-feira,
07 de Julho de 2026 às 10:42

“A atividade física melhora a saúde mesmo quando a balança não muda”
Professor pontua que doenças crônicas predominantes têm origem na inatividade (Foto: Divulgação)

Ex-reitor da UFPel e atualmente professor da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, o epidemiologista Pedro Hallal esteve em Pelotas na última semana para participar da 2ª Jornada Hospitalar da Beneficência Portuguesa. Em entrevista, ele falou sobre a “pandemia silenciosa” da inatividade física, a importância das políticas públicas e os impactos do sedentarismo na saúde.

Por que você afirma que vivemos uma “pandemia silenciosa” da inatividade física?
Quando a gente fala em saúde, precisa entender a época em que está vivendo. Antes, os principais problemas eram doenças infecciosas. Hoje, predominam doenças crônicas, como diabetes tipo 2, hipertensão, infarto e AVC. A inatividade física é um dos principais fatores de risco para essas doenças. Ela afeta 80% dos adolescentes no mundo, um terço dos adultos e provoca cerca de cinco milhões de mortes por ano. É um problema extremamente grave, mas que ainda não recebe a atenção necessária.

Por que as pessoas têm tanta dificuldade em manter uma rotina de atividade física?
A atividade física é um hábito construído ao longo da vida. Quem teve boas experiências na educação física escolar costuma permanecer mais ativo na idade adulta. Mas hoje a rotina é mais corrida, o lazer passou a acontecer muito mais em frente às telas e as novas gerações se acostumaram menos a se movimentar. Por isso, precisamos criar oportunidades, como ciclovias, ruas fechadas aos fins de semana e espaços públicos que incentivem as pessoas a praticarem atividade física.

O Brasil ainda investe pouco em políticas públicas para estimular esse hábito?
O Brasil já foi referência mundial nessa área. Tivemos iniciativas importantes, como o programa Academia da Saúde, mas infelizmente houve um retrocesso. Pelotas tem bons exemplos, como o Vida Ativa e o Ruas de Lazer, mas ainda há muito a avançar. Precisamos de mais ciclovias, mais espaços para pedestres, mais academias populares e mais incentivo à atividade física dentro das unidades básicas de saúde.

Hoje ainda existe a ideia de que atividade física serve apenas para estética ou esporte competitivo. Como mudar essa visão?
Esse é um dos grandes desafios. Claro que as pessoas podem fazer atividade física por estética ou por competição, mas ela vai muito além disso. Muitas vezes a pessoa começa a se exercitar para emagrecer e desiste porque a balança não muda. Só que a atividade física reduz gordura e aumenta a massa muscular, então o peso pode permanecer parecido. A atividade física melhora a saúde mesmo quando a balança não muda. Esse é um dos mitos que precisamos combater.

As redes sociais também alimentam falsas promessas de resultados rápidos. Como você vê isso?
Existe muita propaganda enganosa, principalmente envolvendo suplementos e promessas milagrosas. Não existe solução rápida. Os benefícios vêm com regularidade e continuidade. Até mesmo as canetas emagrecedoras exigem cuidado. Elas podem trazer resultados, mas mudanças duradouras acontecem principalmente quando a pessoa melhora a alimentação e incorpora a atividade física ao estilo de vida.

Como convencer quem vive adiando o início de uma atividade física?
O erro é tratar a atividade física como um remédio chato que a pessoa é obrigada a tomar. O prazer é fundamental. Eu, por exemplo, não gosto de fazer esteira, mas adoro jogar futebol com meus amigos. As pessoas precisam encontrar uma atividade que gostem de fazer. Quando existe prazer, a chance de manter esse hábito por muitos anos é muito maior.

Depois da reitoria da UFPel e da pandemia, você chegou a cogitar entrar para a política. Isso ainda é uma possibilidade?
Foi uma das melhores decisões da minha vida não entrar na política naquele momento. Houve muita pressão porque eu tinha grande exposição pública, mas percebi que minha vocação está na pesquisa, no ensino e na universidade. Hoje estou muito satisfeito com minha carreira nos Estados Unidos e não tenho planos de ingressar na política.

O que você destaca como a principal pesquisa em andamento na área da atividade física?
As coortes de Pelotas continuam sendo um patrimônio da ciência brasileira. Elas acompanham milhares de pessoas há décadas e produzem resultados que influenciam a saúde pública no mundo inteiro. Tenho certeza de que os próximos grandes avanços científicos sobre atividade física, cognição, câncer e envelhecimento saudável continuarão saindo dessas pesquisas realizadas aqui em Pelotas.

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