O Rio Grande do Sul se tornou o primeiro estado brasileiro a interromper o crescimento populacional e iniciar uma trajetória contínua de redução no número de habitantes. Enquanto o Brasil só deve entrar nesse processo em 2041, segundo projeções do IBGE, o Estado começa a registrar queda já a partir deste mês de julho.
De acordo com Martin Henkel, fundador da SeniorLab e autor do estudo, o principal fator por trás da mudança é a queda na taxa de natalidade, fenômeno que já ocorre em todo o país, mas que chegou antes ao território gaúcho. “Os fatores são vários, mas o mais importante é a redução da fertilidade. As mulheres estão tendo menos filhos e a reposição populacional não está sendo suficiente pelos nascimentos. Já estávamos em um platô de equilíbrio e agora começamos a efetivamente diminuir em população”, explica.
Falta de mão de obra deve ser um dos primeiros impactos
Um dos primeiros reflexos da mudança demográfica deve aparecer no mercado de trabalho. Com menos crianças nascendo hoje, haverá menos jovens entrando no mercado nas próximas décadas.
Henkel alerta que o cenário tende a agravar a escassez de profissionais. “Nos próximos 18 a 20 anos, nós vamos ter um agravamento da questão de profissionais no mercado. Nascendo menos crianças, teremos menos pessoas se formando e entrando para trabalhar”, afirma.
Segundo ele, as empresas precisarão rever a forma como enxergam profissionais mais experientes e ampliar a inclusão de trabalhadores mais velhos nas equipes.
Envelhecimento pressiona saúde pública
Outro efeito direto da redução populacional será o aumento do envelhecimento da população, o que deve elevar a pressão sobre sistemas de saúde e assistência social. “Nós temos um grande desafio na questão da saúde e do amparo social. Envelhecer custa caro”, destaca Henkel. Ele defende que o poder público comece a investir mais em prevenção e no conceito de geriatria preventiva para reduzir impactos futuros.
Municípios menores sentirão antes
Os efeitos da mudança populacional tendem a aparecer mais rapidamente em cidades menores, principalmente em municípios que já registram saída constante de jovens para estudo e trabalho em outras regiões.
Henkel cita Pelotas como exemplo de cidade que já apresenta envelhecimento demográfico avançado. “Pelotas tem hoje 70,2 mil habitantes com 60 anos ou mais. Isso equivale a 21% da população. Mais de um em cada cinco moradores já está nessa faixa etária”, observa.
Debate político está atrasado
Apesar das mudanças já em curso, o especialista avalia que o tema ainda recebe pouca atenção no debate público e no planejamento político. “Esse tema precisa fazer parte das propostas para quem quer governar, legislar e ajudar o Brasil e o Estado a crescer”, afirma.
Segundo ele, a sociedade começa a entender melhor o envelhecimento populacional, mas governos ainda não tratam a questão com a urgência necessária.
Mudança também altera estrutura familiar
A redução no número de filhos está ligada a fatores econômicos, sociais e mudanças no papel da mulher na sociedade. “Hoje é muito caro criar um filho. As mulheres estão atrasando esse momento por conta de capacitação profissional, educação e também pelo modo atual de vida”, analisa.
Henkel destaca que a estrutura familiar mudou significativamente nas últimas décadas. “Hoje existem famílias em que há um neto, os pais e quatro avós. Isso vai ser cada vez mais comum e tende a se tornar o novo normal daqui para frente”, diz.
Profissões ligadas ao cuidado devem crescer
Com uma população cada vez mais envelhecida, profissões ligadas ao cuidado tendem a ganhar espaço no mercado. Entre elas, Henkel destaca a atividade de cuidador de idosos como uma área em forte expansão. “Teremos mais pessoas vivendo por mais tempo e muitas delas precisando de atenção por períodos maiores. A profissão de cuidador cresce em todo o Brasil e vem melhorando em remuneração nos últimos anos”, aponta.

