A saúde intestinal vai muito além da alimentação. Embora uma dieta equilibrada tenha papel fundamental no funcionamento do intestino, fatores como hábitos de vida, consumo de água, composição da microbiota, tabus em torno do tema e até comportamentos aprendidos na infância também influenciam diretamente a saúde digestiva.
Como nutricionista, essa saúde intestinal tem 100% a ver com alimentação ou tem outros fatores que complicam?
Tem vários fatores. Essa questão ainda é um grande tabu. É muito comum eu encontrar pacientes que viveram 20 anos com constipação e não falam sobre isso, até porque é normal, porque a mãe era assim, a avó era assim. Então, é muito comum as pessoas terem problemas intestinais e aprenderem a conviver com esses problemas, achando que é algo normal.
Quando a gente vai estudar a microbiota intestinal, que é a barreira de bactérias que a gente tem, a gente tem bactérias positivas e negativas dentro dessa microbiota. O objetivo é que a gente tenha mais positivas pra gente ter mais imunidade, para influenciar muito mais o nosso bem-estar, digestão de alimentos, absorção desses alimentos e nutrientes. Mas é comum a gente ter disbiose, que é alterações dessas bactérias, e a gente tem mais de 20 tipos de disbiose diferentes, mais de 20 tipos de alterações no funcionamento intestinal. Então, às vezes a gente acha que é uma simples intolerância à lactose, mas, na verdade, é uma microbiota que está completamente alterada e que essa paciente não toma os cuidados necessários porque aprendeu a conviver com esses sintomas.
Quando vamos ao supermercado, vemos muitos produtos “ricos em probióticos”. Isso ajuda mesmo ou é mais uma questão de marketing?
Depende. Na nutrição, falamos muito a palavra “depende”. Porque depende pra quem, quando, como, frequência… Alguns probióticos, algumas coisas que vemos para a saúde intestinal, vão fazer sentido. Mas existem outros que sim, têm mais marketing envolvido. Por exemplo, vemos o leite fermentado, mas aí vamos analisar os ingredientes e tem basicamente açúcar, edulcorantes, conservantes, e não necessariamente vai ser um alimento rico em probiótico. Porque os alimentos ricos em probióticos, a gente tem principalmente o iogurte natural. O iogurte natural já vai ter probiótico na sua composição, mas aí temos essa indústria que coloca “rico em fibras”, mas às vezes os ingredientes nem são tão ricos assim nesses nutrientes que fazem a diferença para a saúde intestinal.
E aí é importante sempre a gente ler os ingredientes, porque o rótulo chama muito a atenção. E aí tu olhas “para a saúde intestinal” e pensas que precisas disso. Só que tu precisas analisar o que tem por trás desses ingredientes, porque às vezes tu precisas mais de uma fibra do que necessariamente de um probiótico. Então, por isso que a gente precisa entender o que tem por trás daquele alimento que a gente está consumindo.
Fibra e água são dois elementos essenciais para mantermos uma saúde intestinal boa?
São muito essenciais, e, agora no inverno, a gente tende a tomar menos água e, como consequência, a gente também come menos fibra. Porque onde estão as principais fibras da nossa alimentação? Nos vegetais, nas frutas, a gente tende a comer menos.
Então a gente já tem alterações que já são perceptíveis já no inverno por conta disso. Então a água é indispensável para um bom funcionamento intestinal. Às vezes o paciente chega: “Ah, eu tenho problemas intestinais e estou tomando probiótico”, mas, se não está tomando água, não vai adiantar nada.
E falando de fibra, a gente tem uma fibra que é muito importante para a saúde intestinal, que é uma das que mais se fala, que é o psyllium. Só que a gente precisa tomar cuidado com a quantidade de psyllium que a gente suplementa. Porque ele também vai precisar de ainda mais água. Porque às vezes a gente usa o psyllium para tratar uma constipação, mas, se o paciente não toma água, a gente piora ainda mais essa constipação. Então tudo vai depender da dose e da necessidade desse paciente.
E as crianças também sofrem de problemas intestinais? Isso também já tem que ser regrado desde muito cedo?
Sim, porque boa parte dos problemas intestinais acontecem durante esse período. E aí tem várias questões que podem influenciar. Eu escutei uma vez numa palestra uma psicóloga falando sobre isso, que as fezes para o bebê são a obra-prima do bebê. E aí, o que a gente faz quando o bebê faz cocô? “Ai, que coisa ruim, ai, que cheiro ruim”, a gente descredibiliza uma coisa que ele fez sozinho. E aí, desde pequeno, a criança aprende que aquilo não é algo bom, aquilo é algo ruim. E aí ele também já começa a trazer esse tabu em função de não falar sobre cocô, que é feio falar sobre isso. Mas, muitas vezes, é não falando que a gente não tem diagnósticos precoces, por exemplo, de câncer.
Então a gente precisa falar sobre isso, a gente precisa analisar a qualidade das nossas fezes, a gente precisa analisar a frequência, a coloração, se afunda, se boia, e são coisas que naturalmente as pessoas têm vergonha de falar sobre isso, né? Então, é importante a gente tirar essa ideia de que é algo ruim, entender que isso faz parte, porque todo ser humano faz, e analisar de uma forma mais cuidadosa e trazer para profissionais.
Conviver com sintomas não é normal. Conviver com constipação, com diarreia, com estufamento, com gases excessivos, não é normal, mesmo que a gente já tenha aprendido a conviver com isso. E às vezes a criança também convive, porque aprendeu que isso daí também era normal. E aí a criança já tem mais dificuldade de tomar água, já tem dificuldade de consumir frutas. Então, é um desafio um pouco mais complicado para as cuidadoras dessas crianças introduzir esses ingredientes que fazem parte do bom funcionamento intestinal.