Uma dor pulsátil de forte intensidade, geralmente em um dos lados da cabeça, seguida de náuseas, sensibilidade a sons, luzes e a atividades físicas. Para a pessoa com enxaqueca, esse quadro debilitante é quase parte da rotina diante da frequência das crises. A condição neurológica é crônica e acompanha em torno de 15% da população mundial. No Brasil, há cerca de 30 milhões de pessoas convivendo com a enxaqueca.
Diferente das pessoas sem a doença, o cérebro de quem tem esse tipo de cefaleia é hipersensível a estímulos internos — oscilações do próprio organismo — e externos, como fatores ambientais. Diante de alterações hormonais ou na rotina, a resposta imediata do cérebro é ativar o sistema trigeminovascular, responsável por provocar a dor de cabeça e os sintomas associados de fotofobia, fonofobia e enjoos.
É justamente por causa da sensibilidade cerebral às mudanças hormonais que a enxaqueca atinge majoritariamente as mulheres. A queda de estrogênio no período menstrual é um dos principais gatilhos para a dor. Conforme estimativas de neurologistas, para cada homem com enxaqueca, há três mulheres. As cefaleias geralmente se manifestam na puberdade e oscilam de acordo com o período de vida das mulheres. Na gravidez, a estabilização dos níveis de estrogênio contribui para a diminuição das crises; durante a perimenopausa, ocorre o oposto em razão do declínio hormonal.
Causa
A enxaqueca é uma condição genética, uma combinação de múltiplos genes associados que podem fazer o problema aparecer. A maioria dos pacientes afetados, cerca de 70%, tem familiares, como um dos pais, que também possuem a doença.
Prevenção
Para além da relação com os hormônios, a enxaqueca pode ser desencadeada por mudanças ou falta de rotina. Alterações no sono, seja dormir pouco ou mais do que o usual, frequentemente são um dos gatilhos mais comuns. “Uma das coisas mais importantes é ter o sono regular. Às vezes a pessoa está cansada e no fim de semana quer descansar, pensa em dormir um pouco a mais, e aí acorda com dor”, explica o neurologista do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel), Adolfo Bonow.
Outros fatores indispensáveis para prevenir as crises são manter uma alimentação balanceada, evitar jejum prolongado, estar sempre hidratado, evitar bebidas alcoólicas e praticar exercícios físicos regularmente.
Diagnóstico
O diagnóstico da enxaqueca é clínico, ou seja, não existe nenhum exame que vá apontar a existência da condição. Para chegar ao quadro, os neurologistas realizam uma série de perguntas detalhadas sobre os sintomas e analisam o histórico do paciente e de familiares.
“A gente avalia os critérios como o tipo de dor, as características da dor, se é pulsátil, latejante, se piora com esforço físico…”, diz Bonow.
Conforme o neurologista, para o paciente ser diagnosticado com enxaqueca, ele precisa apresentar pelo menos dois dos quatro principais sintomas da doença, como crises periódicas, dor intensa e fatores associados. Algumas pessoas, por exemplo, podem ter dor unilateral, mas não apresentar sintomas de aura, como sensibilidade à luz e formigamentos na boca e nas mãos.
Tratamento
A enxaqueca pode durar de três até 72 horas, por isso é essencial tomar um medicamento para dor logo no início dos sintomas. Quanto maior o tempo para a intervenção, mais intensa pode se tornar a crise.
“A enxaqueca é um processo que vai se alastrando. Depois que já evoluiu essa instalação, é mais difícil cortar essa crise. Sempre que começa a dor, a gente precisa eliminar esse processo no começo para não evoluir e depois ficar mais difícil e ter que tomar vários medicamentos”, salienta o neurologista.
Os principais medicamentos para o tratamento agudo:
- analgésicos
- anti-inflamatórios
- triptanos (medicamentos específicos para enxaqueca que podem aliviar a dor e outros sintomas)
Tratamento preventivo
Em caso de crises frequentes, com mais de cinco episódios por mês, o tratamento preventivo pode ser considerado. Para a profilaxia são utilizados diferentes tipos de medicamentos — formulados para outras doenças —, como antidepressivos, anti-hipertensivos e anticonvulsivantes, que, em dosagens específicas para cada paciente, previnem as crises.
O neurologista explica que cada classe de remédio atua em diferentes mecanismos envolvidos na enxaqueca. Os antidepressivos, por exemplo, aumentam alguns neurotransmissores e reduzem outros presentes na cadeia da crise. Do outro lado, os anti-hipertensivos agem nos vasos sanguíneos, que muitas vezes sofrem dilatação, provocando dores de cabeça. “São medicações que foram muito estudadas e funcionam muito bem”. O tratamento preventivo dura alguns meses e tem como objetivo controlar o quadro crônico de crises.
Cefaleia por uso excessivo de analgésicos
O neurologista alerta para os riscos da automedicação. Embora o uso de medicamentos seja importante no início da crise, Bonow destaca a necessidade de priorizar medidas preventivas no dia a dia, reduzindo a dependência frequente de analgésicos e anti-inflamatórios.
O uso recorrente de analgésicos, em 15 dias ou mais por mês ao longo dos últimos três meses, pode levar ao desenvolvimento da chamada cefaleia por uso excessivo de medicamentos. “E o próprio medicamento acaba causando dor, então o tratamento acaba sendo difícil porque a pessoa não pode mais usar tantos medicamentos”, diz.
Investir na rotina
Para melhorar a qualidade de vida, o neurologista destaca a necessidade de estabelecer e manter, ao longo do tempo, uma rotina organizada de sono, alimentação e atividade física, a fim de interromper o ciclo entre dor incapacitante e uso frequente de medicamentos.