Era digital transforma a educação e amplia desafios entre hiperconexão e falta de acesso

desafios

Era digital transforma a educação e amplia desafios entre hiperconexão e falta de acesso

Escolas pelotenses convivem com realidades extremas na conexão de alunos

Por

Era digital transforma a educação e amplia desafios entre hiperconexão e falta de acesso
O uso de celular durante as aulas está proibido desde o ano passado (Foto: Jô Folha)

No Dia da Educação, celebrado nesta terça-feira (28), especialistas e representantes da rede pública e privada de Pelotas apontam que as escolas pelotenses vivem um dos momentos mais desafiadores de sua história recente: ensinar alunos hiperconectados, cercados por estímulos digitais, enquanto ainda enfrentam desigualdade de acesso à tecnologia e carência de profissionais.

As análises foram feitas por Maristela Cardoso, assessora da Coordenadoria de Gestão Pedagógica da Secretaria Municipal de Educação (SME), Joice Costa, professora da rede municipal, e Juliana Damasceno de Oliveira, coordenadora pedagógica do Colégio Gonzaga. Embora em realidades distintas, as três profissionais convergem em um ponto: a tecnologia já mudou definitivamente a forma de aprender e de ensinar. O objetivo comum hoje é a busca por equilíbrio. “O problema não é o dispositivo. O problema é a medida: o excesso ou a falta”, resume Juliana.

Escola tradicional para alunos do século 21

Para Juliana Damasceno, a estrutura escolar ainda segue modelos antigos diante de uma geração que cresceu em ambiente digital. “Nós professores somos professores formados no século 20 e damos aula para alunos do século 21. Só nesse contexto a gente já percebe que é bem desafiador”, aponta.

Na rede municipal, Joice Costa também reconhece que a tecnologia passou a influenciar diretamente o comportamento dos estudantes. “A gente percebe que tem uma diferença a partir do uso das tecnologias, mas também entendendo que a gente precisa utilizar a tecnologia ao nosso favor”, explica.

De um lado, a hiperconexão…

Entre os principais impactos da era digital está a dificuldade de concentração prolongada, especialmente entre crianças e adolescentes acostumados ao consumo rápido de conteúdo. “Os algoritmos já verificaram que o foco atencional da maioria dos jovens é menor do que 30 segundos. Por isso os vídeos são curtos”, explica Juliana.

Segundo ela, essa lógica chega à escola e torna mais difícil manter o engajamento em atividades que exigem leitura, escrita e raciocínio contínuo. “Aquele ambiente da sala de aula muitas vezes é desinteressante para ele. Não porque o tema não seja bom, mas porque ele precisa parar e se concentrar.”

…do outro, a falta de acesso

Se para alguns alunos o excesso de telas é problema, para outros a dificuldade ainda é a falta de acesso. Joice Costa relata que estudantes da rede pública ainda enfrentam limitações básicas. “Ainda tem muitos alunos que não têm acesso ao celular. Às vezes uma pessoa da família tem, ou às vezes ninguém tem acesso”, relata.

Ela conta que em laboratórios de informática há alunos que sequer dominam funções simples. “Tem alunos que não sabem como fazer, porque de fato não têm acesso.”

Juliana lembra que esse cenário ficou evidente durante a pandemia. Para ela, a exclusão digital pode gerar impactos futuros graves. “A falta, no mundo globalizado e digital, pode ser irreparável. Como esse aluno vai se contextualizar para o mercado de trabalho depois?”, questiona.

Computação entra no currículo municipal

Entre os avanços destacados pela SME está a implantação do componente curricular de Computação nas escolas municipais, alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Maristela explica que a proposta vai além de ensinar informática básica. “O componente computação não é para auxiliar o estudante a aprender a mexer no computador. É para que ele possa conhecer as ferramentas que envolvem a internet e as questões éticas.” Entre os temas abordados estão cyberbullying, cidadania digital e uso consciente da tecnologia. A previsão é que toda a rede esteja contemplada até 2029.

Formação docente é destaque em Pelotas

Juliana Damasceno destaca Pelotas como referência regional em formação de professores, devido à presença de universidades. “Pelotas é uma cidade privilegiada na questão formativa. Estamos muito bem servidos de universidade.” Ela acredita que isso se reflete diretamente na qualidade do ensino. “Bons professores formam bons alunos. Esse é o grande diferencial.”

Maristela também ressalta que a formação continuada dos docentes é prioridade da atual gestão municipal. “Nosso maior foco dentro da coordenadoria é a formação de professores de diferentes áreas.”

Falta de professores segue como desafio

Apesar dos avanços, a rede municipal ainda enfrenta carência de profissionais. “Um dos grandes desafios hoje que nós temos em Pelotas é a questão da falta de professores”, afirma Maristela. A expectativa da secretaria é suprir parte da demanda com novas convocações por meio da Prova Nacional Docente e de concursos em andamento.

Acompanhe
nossas
redes sociais