Influenciado pelo movimento black music, aos sete anos de idade, Daniel Amaro, 49 anos, criou um grupo de dança com os amigos da sua vizinhança na vila Castilho, começou a se apresentar nos salões do clube cultural Fica Ahí e nunca mais parou. O bailarino formado em balé clássico, dança contemporânea e jazz foi responsável pela criação da primeira companhia de dança afro de Pelotas para formar dançarinos que, assim como ele, estavam longe das oportunidades da arte e da cultura. Em 2026, a Cia de Dança Daniel Amaro completou 25 anos de trajetória.
Nesse percurso, Daniel Amaro assinou a criação de 11 espetáculos, com o 12º do repertório atualmente na etapa de finalização, formou mais de uma centena de bailarinos e fez apresentações em diversas cidades do Brasil. A quebra de paradigmas de um homem negro da periferia como bailarino de destaque tem origem na formação dele na dança erudita. Amaro foi instruído por grandes nomes de Pelotas como Dicléa Ferreira de Souza, Antonia Caringi e Berê Fuhro Souto.
Daniel Amaro ressalta que no início dos anos 90, em Pelotas, havia uma separação bem definida entre a expressão cultural, principalmente a dança, feita pelas pessoas brancas e negras. Enquanto o balé e o jazz eram apresentados em espetáculos no Centro Histórico, as danças e as músicas afro-brasileiras ficavam restritas aos bairros periféricos.

Grupo Brother Show – fundado por Amaro e seu irmão na vila Castilho (Foto: Acervo Pessoal)
“Periféricos só curtiam samba e funk dentro da periferia e toda a cultura erudita era no Centro da cidade. Então essas pessoas não se comunicavam, essas culturas não se comunicavam”, relata. Transitar entre esses dois mundos e perceber a ausência constante de bailarinos negros em grandes espetáculos despertou em Amaro a vontade de incluir novos dançarinos, assim como unir o repertório de estilos clássicos com os de matriz africana.
“Quando eu penso em montar a companhia, eu penso, em primeiro lugar, não em apagar tudo aquilo que eu aprendi com a cultura erudita. Pelo contrário, somar essa cultura erudita com a cultura popular. E a companhia, ela tem esse perfil de dança afro-contemporânea”, explica. No período de um ano em que esteve trabalhando em Buenos Aires, o bailarino escreveu seu primeiro espetáculo, o Reminiscência, e foi quando ele retornou a Pelotas que surgiu a oportunidade de fundar a Cia.
Na época, no ano 2000, estava acontecendo na cidade o Festival Cabobu, uma festa dos tambores dedicada a celebrar a cultura afro-gaúcha, com foco especial no sopapo, um tambor tradicional de Pelotas. E os organizadores do evento convidaram Daniel para apresentar uma performance. “Eu convidei cinco pessoas para fazer um fragmento desse espetáculo chamado Reminiscência, e ali então surge um grupo de dança afro Daniel Amaro”, conta.
Depois de quebrar o primeiro obstáculo racial ao se tornar um bailarino clássico, o segundo foi ultrapassado ao apresentar a sua primeira produção autoral no Theatro Sete de Abril.
“Eu fui audacioso e resolvi montar uma companhia para quebrar esses paradigmas. E o primeiro paradigma que a companhia quebra é chegar no teatro”. A partir da estreia no Sete de Abril, Amaro decidiu que o grupo teria a dança negra do extremo sul do Rio Grande do Sul como recorte de trabalho. Em seguida, ainda no início dos anos 2000, o bailarino, agora também coreógrafo, produziu e dirigiu outros espetáculos, como Tambores do Corpo (2001), Âmago (2003), Homens Ifá (2004) e Maria, Marias (2005).

Bailarino busca formar na dança de excelência jovens como ele de origem da periféria da cidade (Foto: Acervo Pessoal)
Além de dar visibilidade para a cultura negra gaúcha e pelotense, Daniel Amaro inclui há 25 anos jovens negros na arte da dança. Todas as seletivas para a formação dos grupos de dançarinos da companhia buscam talentos das periferias de Pelotas. Os bailarinos ainda recebem ajuda com os custos para frequentar os ensaios e remuneração pelas apresentações. “A maioria das pessoas que passaram pela companhia são pessoas que nunca dançaram num palco italiano como esse [do Theatro Guarany]. Começaram a dançar através da companhia”, diz.
O reconhecimento e o impacto positivo do trabalho de Daniel Amaro para a cena cultural de Pelotas se reflete inclusive no local dos ensaios. A companhia é o único grupo com acesso irrestrito ao Theatro Guarany. Amaro também é o único artista a ter um espetáculo, A Dança dos Orixás (2017), construído especialmente para apresentações na Charqueada São João. “Te confesso que se não fosse a arte talvez eu não estaria nesse teatro aqui. Então, acho que a companhia, ela me abriu as portas para vários lugares. Não só em Pelotas, mas fora também”, reflete.
Agenda movimentada
Daniel Amaro tem a dança e a companhia como centro da vida, mas também trabalha como servidor público do município, por isso, a movimentada agenda de apresentações tem que ser conciliada com a rotina. Por ano, o grupo tem pelo menos 45 atividades quase fixas, seja de espetáculos, oficinas ou workshops. “E é uma companhia que viaja o Brasil todo, levando a cultura negra de Pelotas para fora do Estado”, diz. Atualmente, são 26 bailarinos fixos na Cia de Dança Daniel Amaro.
Profissionalismo e credibilidade
O marco de 25 anos da companhia ocorre em um momento desafiador nos mais de 40 anos de atuação de Daniel Amaro na dança. Com uma fratura no fêmur, ele está afastado dos palcos. Porém, o bailarino vê o processo de recuperação como uma oportunidade positiva para refletir sobre a sua trajetória e aprender a delegar parte da coordenação da agenda de espetáculos. Sentado em uma cadeira no centro do palco do Guarany, com todas as luzes do teatro acesas para ele, Amaro afirma que o sucesso da sua carreira e da Cia de Dança Afro é fruto de dois fatores: profissionalismo e credibilidade.
“As pessoas sempre confundem que uma companhia de dança afro é um projeto social, mas não. Respeitamos muito quem faz projeto social, mas o nosso carro-chefe é a profissionalização. A gente procurou sempre entregar um produto de régua alta e eu acho que essa qualidade de entregar esse produto de alto nível é que faz com que a companhia se mantenha nesses 25 anos”, conclui.
