Cerrito tem memória em risco com incêndio da antiga estação

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Cerrito tem memória em risco com incêndio da antiga estação

Prédio de 1884 foi berço da comunidade cerritense

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Atualizado segunda-feira,
20 de Abril de 2026 às 15:51

Cerrito tem memória em risco com incêndio da antiga estação
Segundo o Corpo de Bombeiros, não há causa confirmada para o incêndio e nem investigação em andamento (Foto: Celestino Garcia)

O incêndio que destruiu a antiga Estação Cerrito, na madrugada de domingo (19), representa mais do que a perda de um prédio centenário. O fogo consumiu boa parte de um dos principais símbolos da origem do município, considerado o berço da comunidade local desde 1884. Sem registro de feridos, a tragédia reacendeu o debate sobre preservação do patrimônio histórico em Cerrito e no interior gaúcho.

Segundo o Corpo de Bombeiros, não há causa confirmada para o incêndio e nem investigação em andamento. Em nota, a Prefeitura Municipal de Cerrito diz que a meta é reconstruir o marco histórico e destiná-lo futuramente a ações culturais. “A estação não é apenas um patrimônio, ela é a razão de Cerrito existir onde existe.”

A prefeitura diz ter recebido a notícia com “profundo sentimento de perda e consternação”, destacando que se trata de um prédio histórico que carrega a identidade do município.

Abandonado há 5 anos

O prédio foi sede da Câmara de Vereadores até 2021, quando o legislativo transferiu o endereço e a estação ficou esquecida. Desde então, permanece fechada e apresenta sinais de deterioração.

(Foto: Celestino Garcia)

Segundo a prefeitura, o imóvel pertence ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), mas está sob responsabilidade do município por meio de contrato de comodato firmado em 2017, com validade de 30 anos. Ainda não há previsão de restauração.

O berço da comunidade cerritense

De acordo com o professor e pesquisador Marcelo Gil, a estação ferroviária foi o núcleo inicial em torno do qual a cidade se formou. O prédio surgiu durante a construção da linha férrea entre Rio Grande e Bagé, na década de 1880. Na época, José Bernabé de Souza, conhecido como Coronel Tututa, proprietário de grande parte das terras da região, doou a área para a implantação da estação. Ao redor do espaço, promoveu um loteamento e comercializou terrenos, dando origem à vila que mais tarde se transformaria em Cerrito.

A estação foi inaugurada em 2 de dezembro de 1884 e, no ano seguinte, recebeu a visita da Princesa Isabel e do Conde D’Eu, durante viagem entre Pelotas e Bagé. Para o historiador, o imóvel era um marco do povoamento urbano na margem norte do Rio Piratini e tinha valor histórico também para Pedro Osório, já que a construção de uma segunda estação, na margem sul do rio, ajudou no surgimento da cidade vizinha.

Busca de apoio para reconstrução

Segundo a prefeitura, está em andamento um levantamento técnico para avaliar os danos estruturais e verificar o que poderá ser recuperado da construção original. O município pretende buscar apoio dos governos Federal e Estadual, além de órgãos de preservação, para viabilizar a reconstrução do espaço. Também estão no radar tentativas de captação de recursos por meio de leis de incentivo à cultura e emendas parlamentares.

Atualmente, Cerrito não possui legislação específica de proteção ao patrimônio histórico nem plano estruturado de manutenção de imóveis antigos. O Centro Administrativo de Vila Freire é o único patrimônio tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul (IPHAE) do município, o que permite, entre outras vantagens, proteção contra demolição e descaracterização e acesso a financiamentos focados na conservação de patrimônio.

Outros prédios históricos cerritenses permanecem sem proteção, como a Paróquia Imaculado Coração de Maria; casarões da Rua Dr. Jacques da Rosa Machado; a Igreja São João, conhecida como Igreja Queimada, no Passo do Santana; o cemitério de Vila Freire com ruínas coloniais e cercas de pedra no interior; além do antigo Cine Carlos Gomes, atual sede da prefeitura e o prédio do Clube Cerritense, que está sendo adquirido para sediar a Câmara de Vereadores.

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