O Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP) iniciou a formação de médicos da Atenção Primária dos 21 municípios que integram a 3ª Coordenadoria Regional de Saúde para implementação de DIU ou Implanon nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). A capacitação faz parte das ações do programa SER Mulher, da Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, do qual o hospital é o único serviço habilitado na região Sul do Estado.
Ao longo de três encontros presenciais, precedidos por atividades teóricas online, cerca de 60 médicos desenvolvem habilidades práticas para inserção de dispositivos intrauterinos (DIU) e do implante contraceptivo subdérmico (Implanon), dois dos métodos contraceptivos reversíveis de longa duração considerados entre os mais eficazes para o planejamento reprodutivo. A proposta busca reorganizar a assistência à saúde da mulher na região, permitindo que esses procedimentos deixem de estar concentrados em poucos serviços especializados e passem a fazer parte da rotina da Atenção Primária.
As atividades são ministradas pelas médicas de Família e Comunidade e preceptoras do Programa de Residência Médica em Medicina de Família e Comunidade (PRM MFC) da UCPel/HUSFP, Natália Franco Tissot e Maria Paula Soares Pereira, com apoio das médicas residentes do segundo ano Ana Laura de Araújo Freitas, Emanuelle Ferrão Lopes e Isabella Silveira Pinheiro. “O que fazemos aqui é capacitar os profissionais para que eles retornem aos seus municípios aptos a oferecer esses métodos com qualidade técnica”, explica Alexandre Moch, médico de Família e Comunidade e responsável técnico do Ambulatório Olivé Leite.
Segundo ele, isso amplia significativamente o acesso aos contraceptivos de longa duração e fortalece o planejamento familiar. “Quando esses profissionais voltam para seus territórios, eles conseguem inserir DIU e Implanon nas próprias unidades de saúde. Com isso, qualificamos a assistência nos 21 municípios e fortalecemos toda a rede de atenção à saúde da mulher.”
Além do atendimento às pacientes encaminhadas para o hospital, a habilitação no SER Mulher prevê justamente esse papel de apoio técnico à rede, por meio de treinamentos, teleatendimento e matriciamento das equipes municipais.
Capacitação responde a uma demanda crescente
A necessidade de ampliar a oferta desses métodos já é percebida pelos profissionais que atuam nos municípios. A médica uruguaia Sandra Milena Coronel Gonzalez, que trabalha na rede pública de São Lourenço do Sul, afirma que a procura pelo implante contraceptivo cresce continuamente e que a capacitação permitirá transformar essa demanda reprimida em atendimento.
“Existe uma procura muito grande. Temos uma fila de espera e estamos aguardando justamente a capacitação e a chegada dos materiais para começar a realizar os procedimentos”, relata.
Segundo ela, o interesse não está restrito a um único perfil de paciente. “Hoje atendemos mulheres de aproximadamente 15 até 40 anos procurando esses métodos. É uma demanda bastante ampla.” A expectativa é que a formação permita reduzir deslocamentos das pacientes para centros de referência, além de diminuir o tempo de espera para acesso aos contraceptivos.
Formação baseada em evidências
A parte prática do treinamento ocorre no Hospital de Simulação (HSIM), utilizando cenários clínicos simulados para que os participantes desenvolvam segurança técnica antes da aplicação dos procedimentos na rede pública.
Durante as atividades, os profissionais discutem recomendações atualizadas e revisam práticas que já não encontram respaldo científico, como a exigência de ultrassonografia de rotina antes da inserção do DIU, a necessidade de a mulher estar menstruada para realizar o procedimento ou a obrigatoriedade de apresentar exame preventivo recente.
Um programa que vai além da contracepção
A formação em inserção de DIU e Implanon representa apenas uma das etapas previstas pelo Programa SER Mulher.
Além da qualificação em planejamento familiar, o cronograma inclui cursos sobre climatério, infertilidade, endometriose e exame ginecológico, direcionados a médicos e enfermeiros dos 21 municípios da região. Também está prevista uma formação específica para enfermeiros realizarem a inserção dos dispositivos, em parceria com a Universidade Católica de Pelotas e o Conselho Regional de Enfermagem.
