O crescimento do trabalho remoto após a pandemia trouxe ganhos em flexibilidade e qualidade de vida para muitos profissionais, mas também levantou um alerta sobre os impactos do isolamento social na saúde mental. Um estudo publicado na edição de junho da revista Science, com dados de cerca de 580 mil trabalhadores nos Estados Unidos entre 2011 e 2024, aponta que o avanço do home office intensificou a sensação de isolamento e pode explicar aproximadamente um terço do aumento do sofrimento psicológico registrado desde a pandemia. Para a psicóloga e professora da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Rosane Feijó, o problema não está no trabalho remoto em si, mas na ausência de contato humano e no enfraquecimento das relações sociais.
Desde a pandemia, trabalhar de casa tornou-se rotina para milhões de profissionais. Os resultados dessa pesquisa mostram que o trabalho remoto pode estar ligado ao aumento de problemas de saúde mental. Estamos vendo essa conta chegar agora?
Sim, em alguns aspectos. Mas é importante diferenciar o trabalho remoto do isolamento social. Trabalhar online, por si só, não gera problemas de saúde mental. O que pode causar sofrimento é o isolamento. Se a pessoa mora sozinha, faz todas as compras pela internet, não sai de casa e praticamente não tem contato presencial com outras pessoas, aí sim existe um isolamento social. Já quem trabalha em casa, mas mantém contato com familiares, amigos, participa de reuniões, sai para fazer compras ou atividades de lazer, não está necessariamente vivendo essa condição.
O estudo mostrou que aumentou a probabilidade de as pessoas passarem um dia inteiro sem contato humano presencial. Entre quem vive sozinho, o impacto foi ainda maior. Ter vínculos e contato social é essencial em qualquer fase da vida?
Exatamente. O contato humano é essencial desde que nascemos. Um bebê depende de outras pessoas para sobreviver, e essa necessidade de convivência acompanha o ser humano ao longo de toda a vida. Precisamos de uma rede de apoio formada por familiares, amigos, colegas de trabalho e outras pessoas. As relações presenciais fazem parte do nosso desenvolvimento e da manutenção da saúde mental. O contato virtual ajuda, mas não substitui a convivência.
Como as empresas devem olhar para os funcionários que trabalham remotamente?
As empresas precisam criar espaços de escuta e de acolhimento. Os gestores devem estar preparados para perceber quando um trabalhador apresenta sinais de ansiedade, sofrimento emocional ou outras dificuldades. Muitas organizações já contam com áreas de gestão de pessoas ou canais de apoio para esse acompanhamento. Também é importante monitorar os riscos psicossociais e conhecer a realidade de cada colaborador, entendendo, por exemplo, com quem ele mora e se possui uma rede de apoio. Além disso, é fundamental incentivar o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal.
O que existe de positivo no trabalho remoto?
O trabalho remoto tem muitas vantagens. Ele oferece flexibilidade e evita deslocamentos, facilitando diversas atividades. Mas é fundamental estabelecer uma rotina semelhante à do trabalho presencial. É importante acordar no horário habitual, se preparar para trabalhar, fazer pausas durante o expediente, levantar, movimentar o corpo, manter contato com outras pessoas, praticar atividade física e reservar momentos para o lazer. O autocuidado também é indispensável. Sempre que a pessoa perceber mudanças no seu bem-estar físico ou emocional, deve procurar ajuda.
Hoje também se discute a redução da jornada de trabalho e a saúde mental dos trabalhadores. O brasileiro trabalha demais?
A jornada de seis dias de trabalho para apenas um de descanso deixa pouco tempo para cuidar da casa, resolver questões pessoais, conviver com a família e aproveitar momentos de lazer. Muitas pessoas acabam concentrando todas essas tarefas em um único dia e chegam à segunda-feira ainda mais cansadas. Isso afeta o sono, provoca fadiga, reduz a motivação, dificulta a concentração e aumenta a irritabilidade. A saúde é biopsicossocial, ou seja, depende do equilíbrio entre corpo, mente e relações sociais. Por isso, o descanso e o lazer também são fundamentais para preservar a saúde mental.