Elas passaram a vida à espera do pescado que vem da lagoa, atuaram junto ao marido na limpeza dos peixes e na restauração de redes de pesca e absorveram algo fundamental para uma nova fase na vida: experiência para empreender. São 18 anos de trabalho, muita resiliência e um protagonismo que já ultrapassou fronteiras, derrubou barreiras culturais e tem garantido autonomia financeira para as pescadoras da Colônia Z-3, por meio do projeto Redeiras.
Sem deixar de lado a vocação da pesca artesanal, o que antes era descartado virou acessório, como bolsa, e, por que não, artigo de luxo. A partir das Redeiras, a vida na comunidade pesqueira, que no período do defeso era sinônimo de restrições financeiras, tornou-se um espaço de apoio mútuo entre mulheres que se fortalecem diariamente.
O processo nem sempre foi fácil. Com o apoio do Sebrae, que identificou potencial no trabalho artesanal das pescadoras, foram quase dois anos de oficinas até que os primeiros resultados apareceram. Durante esta semana, uma das representantes do grupo está em Brasília para apresentar a experiência das Redeiras em um evento promovido pelo Ministério da Pesca, Ministério do Meio Ambiente.

Flávia ressalta a importância do apoio técnico para a evolução do projeto como modelo de negócio (Foto: Jô Folha)
Quando as primeiras oficinas começaram, em 2009, as participantes não imaginavam que as redes descartadas pelos pescadores se transformariam em uma nova fonte de renda. “A gente nunca pensou que a rede que era descartada na Lagoa pudesse render e se transformar na nossa fonte de renda. O pescador aproveitava um pouco da corda, um pouco do chumbo, e o restante era jogado fora”, relembra a pescadora e artesão Flávia Silveira Pinto, de 53 anos.
Ela conta que a mudança começou quando a designer Karine Faccin passou a trabalhar com o grupo. As oficinas, inicialmente vistas apenas como uma oportunidade de convivência entre mulheres da comunidade, logo revelaram um potencial muito maior. “Todas as mulheres da colônia se conheciam, mas não tinham proximidade. Quando sentamos para trabalhar juntas, percebemos que aquilo era muito bom. Aos poucos, fomos entendendo que aquilo que parecia tão pequeno estava se tornando algo muito grande”, conta.
O primeiro grande impulso veio após uma feira realizada em São Paulo, em 2010. Com as primeiras encomendas e novos desafios, as artesãs passaram a experimentar técnicas de tingimento, aprimorar acabamentos e desenvolver produtos exclusivos. Além da criatividade, foi preciso aprender a empreender. A formação de preços foi um dos principais desafios enfrentados pelo grupo.

Nica é uma das lideranças do projeto e já viajou o mundo apresentando a iniciativa desenvolvida na Z-3 (Foto: Jô Folha)
“Antes, a gente fazia um brinco e colocava um valor sem saber calcular o tempo de trabalho. Não sabia quanto valia a minha hora, o processo de lavagem, de corte ou o material utilizado”, lembra Flávia. O apoio técnico foi fundamental nesse processo. Artesã e atual presidente da Associação Redeiras, Rosani Rafi Schiller, carinhosamente chamada de Nica, explica que a precificação passou a considerar cada etapa da produção.
“Uma bolsa é feita por quatro, cinco ou até seis pessoas diferentes. Tem quem lava a rede, quem corta os fios, quem faz o tear, quem costura, quem faz o acabamento. Tudo é calculado por etapas”, explica.
Reconhecimento
A transformação também aconteceu dentro das famílias da Colônia Z-3. Acostumadas a ocupar funções de apoio na pesca, as mulheres passaram a ser reconhecidas como protagonistas. “Quando começamos, ficamos mais de um ano sem receber nada. Muitas vezes éramos desestimuladas, porque deixávamos outras atividades para participar das oficinas. Hoje somos exemplo”, afirma Flávia.
Atualmente, embora o grupo principal seja menor, mais de 30 mulheres trabalham indiretamente com as Redeiras, gerando renda para a comunidade. “Hoje a gente gera emprego e quer gerar ainda mais. Com a nossa futura loja, queremos receber visitantes, contar a nossa história e ensinar o que aprendemos”, projeta Nica.
O reconhecimento ultrapassou as fronteiras da Colônia Z-3. As biojoias produzidas a partir de escamas de peixe e prata já conquistaram clientes em diferentes regiões do país e no exterior. “Às vezes, as pessoas compram o produto pela história. Quando explicamos que é feito de rede e escama de peixe, elas se encantam”, conta Flávia.
Case de sucesso
Desde terça-feira (16), Nica participa em Brasília de uma oficina sobre equipamentos de pesca abandonados, perdidos e descartados, promovida pelo Ministério da Pesca, Ministério do Meio Ambiente e uma organização alemã. “Vou contar sobre a nossa experiência de reciclagem do descarte da pesca. Já recebemos novos convites para eventos nacionais e internacionais sobre reciclagem e economia azul”, destaca.
Partilha
Flávia explica que as biojoias são produzidas a partir de escamas de peixe recortadas manualmente e combinadas com prata e bordados, agregando valor a um material que antes era descartado. Ela relembra a satisfação de receber o primeiro pagamento pelo trabalho, especialmente por ter conseguido transformar uma atividade desacreditada em uma fonte de renda. “Agora nós até ‘brigamos’ por uma rede. Dá aquela pra mim. Não, ela dura mais um pouco. É uma disputa sadia”, comenta Flávia ao fazer referência ao respeito que se construiu no ambiente familiar.
Segundo ela, o projeto trouxe mais segurança financeira para as famílias das pescadoras, já que as artesãs recebem pelas peças produzidas independentemente da venda final. “A renda complementar ajuda a enfrentar a instabilidade da pesca, marcada por períodos de baixa captura e pelo defeso, quando a atividade é suspensa.”
