Chocou o Brasil a morte violenta da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, que faleceu após uma inexplicável falha de segurança ao não ser presa nos equipamentos durante um salto de rope jump no interior de São Paulo. Praticamente todas as análises, críticas e opiniões sobre o caso já foram emitidas desde sábado, afinal, para além da tragédia bizarra, abre-se todo um questionamento sobre a fiscalização de esportes radicais. Mas há um desdobramento além que inacreditavelmente aconteceu: a sexualização da vítima. Sim. Minutos após ela morrer, seu perfil foi compartilhado milhares de vezes e diversos comentários absurdos foram feitos acerca de sua beleza e seu corpo.
Isso faz parte de uma cultura voltada à objetificação do corpo feminino, única e exclusivamente como algo voltado ao prazer sexual. Não há ali uma vida. Não há um coração que pulsa. Não há uma pessoa querida que deixou de existir diante de um absurdo inaceitável. No ponto de vista desses canalhas, há um rosto bonito acompanhado de coxas, peitos, bunda e só.
E engana-se quem pensa que esse tipo de absurdo acontece só atrás de perfis fakes de redes sociais, escondidos atrás do anonimato. Na última semana, por exemplo, a atriz Sharon Stone, uma das mais badaladas de Hollywood, revelou que divorciou-se do jornalista Phil Bronstein após ele rejeitar que ela realizasse uma mastectomia diante da suspeita de um câncer. Ele preferia vê-la adoecer, mas com os seios intactos e voltados para seu prazer, do que permanecer bem, mas sem eles. Reflita um pouco sobre isso, caro leitor, e pense na cultura que foi implementada na nossa sociedade.
Os feminicídios no Rio Grande do Sul são um dos grandes temas de discussão desse ano, dada a sua alta. Mas o problema é muito maior. É cultural. É a desumanização feminina diante da percepção de que seu propósito inicial é o sexo e o resto vem depois. Diante disso, é preciso lamentar, sim, mas também agir. Isso não pode continuar como está e se muda com diálogo, educação e ao identificar pessoas com esse pensamento e reorientá-las para o caminho da humanidade. Se é que é possível.