A frieza de um Alt 167

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

A frieza de um Alt 167

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Da extinção de parte da nossa humanidade pelo mundo digital — cito a socialização, o apreço pela leitura e a concentração entre as principais perdas —, encontrei na reportagem produzida pela DW Brasil uma reflexão que julgo necessária e que ainda não havia percebido: estamos nos despedindo da escrita produzida no papel. Já não escrevemos como nossos pais e avós e passamos a digitar a vida. Assim como faço agora, neste artigo, abandonamos rapidamente o hábito que ajudou o cérebro a se desenvolver nos últimos 3,5 mil anos.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estabelece o ensino da letra cursiva nos primeiros anos do ensino fundamental. A regra chega tarde. Quem começa a aprender o ABC vai para os bancos escolares já doutrinado pelas telas. Então, é guerra perdida? Talvez não. Inúmeras pesquisas comprovam que escrever letras pelo método tradicional ativa caminhos neurais e melhora o aprendizado e o desenvolvimento da linguagem. O automatismo da digitação, por sua vez, é um limitador.

Eu e minha esposa conversávamos a respeito da reportagem da DW Brasil e lembrei do início de nosso namoro. Há 30 anos não havia internet nem linhas telefônicas nas casas, a ponto de qualquer família ter seu próprio número. Escrever e enviar cartas pelos Correios era o caminho mais rápido. Assim nos comunicamos durante o período em que ficamos separados: ela em Piratini e eu em Pelotas. Redigíamos páginas de cadernos um para o outro. Guardo até hoje nossas correspondências.

Sei que pareço estar me referindo à Idade da Pedra, mas a massificação das comunicações tem apenas três décadas. Terminamos nossa conversa com um acordo de casal: vamos voltar a trocar cartas. Pegar uma folha, sentar à mesa e escrever. Talvez venham, nesse exercício, sentimentos, apreensões, esperança, sonhos e reflexões. E também nossa dificuldade de expressar livremente, pela escrita, ideias roubadas pelos teclados do computador e do celular. Para mim, ainda, será um desafio. A pressa exigida pelo jornalismo ao longo do tempo destruiu aquilo que um dia chamei de letra.

Nos Estados Unidos cresce o número de pais que reclamam de seus filhos terem dificuldades na escola porque usam, na maior parte das vezes, aparelhos conectados. A busca no pós-pandemia vem sendo justamente por habilidades responsáveis por diminuir essa dependência das telas entre as crianças. No caminho inverso, a escrita tradicional passou a ser resgatada na Europa. Reino Unido, Espanha, Itália, Portugal e França estão à frente da iniciativa. A Finlândia, porém, deixou de exigir a escrita cursiva no ensino há uma década. O mesmo caminho tentou ser seguido pelo Canadá, que voltou atrás em 2023.

Escrever moldou gerações, registrou o conhecimento e o brilho do mundo. Sem esse hábito milenar, não teríamos as cartas de amor, os manuscritos gregos, a Odisseia, a Bíblia, as peças de teatro e O Diário de Anne Frank. Juntar as sílabas em um pedaço de papel potencializa a leitura e o desenvolvimento cerebral. A era digital contaminou a comunicação humana e ultrapassou o ponto de não retorno. A escrita deu lugar às teclas. O Alt 167 registra o indicador ordinal masculino do numeral primeiro. Com caneta, seria o número 1 com uma bolinha e um risco do lado direito. A frieza dos teclados arrefeceu o calor da vida.

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